quarta-feira, 18 de janeiro de 2012


A fundação do ateísmo Nietzschiano no anti-cristo

DA MORAL E DAS VERDADES



A priori diríamos que o livro de Nietzsche “Der Antichrist”, antes de lermos ao menos sua introdução ou as primeiras linhas do primeiro capítulo, se trataria de um ataque a pessoa de Cristo, mas ao iniciarmos a leitura é possível chegar a uma compreensão bem mais complexa do conteúdo que uma mera concepção contrária aos ensinamentos do mestre dos evangelhos.

A crítica de Nietzsche é, sobretudo dirigida ao homem moderno, aos seus contemporâneos e como suas vidas eram organizadas e vividas segundo uma moral cristã que aos olhos do filósofo eram decadentes.  O que Nietzsche designa como decadente são os valores apreendidos dos ensinamentos do cristianismo, que fazem do homem menor do que aquilo que ele pode representar, ou seja, sua humanidade, suas vontades, seu próprio desejo de superar-se e tornar-se uma figura humana e quiçá além de sua própria humanidade.  Para esclarecer os principais pontos de sua visão crítica sobre as bases do cristianismo faz-se necessário um retorno ao início de como o mundo ocidental foi ao longo dos tempos tomando sua forma.  Primeiramente, a figura de Cristo não é a mais polêmica e nem tão pouco a que será mais combatida ao longo do seu “anticristo”.  Até mesmo porque a intenção do filósofo não é combater o Cristo propriamente dito mas o que a tradição utilizou e distorceu de seus ensinamentos.  É importante considerar a etimologia da palavra αντι oriunda do Grego, e que traz em sua significação “aquilo que substitui” e não como fora adaptada para os demais idiomas com o peso de ser contrário a algo.  E se há alguma crítica ou pensamentos contrários as intituições já estabelecidas assim como a liturgia por trás das mesmas, elas certamente terão um endereço mas não necessariamente e de modo contundente a figura do Cristo, a quem, o filósofo por vezes refere-se a ele com certo cuidado, como nos é possível perceber em algumas citações ao longo do livro.  O título foi de algum modo bastante sugestivo ou bem elaborado se consideramos o que de fato o filósofo tentava combater.  Ora, não se trata do Cristo como já foi descrito acima, mas de todos os valores metafísicos que criaram a partir de seus ensinamentos, mas, sobretudo, dos ensinamentos de Platão que foi o precursor do dualismo entre mundo inteligível e mundo sensível. 

“Em sua obra “Para além do bem e do mal” Nietzsche descreve o Cristianismo como um platonismo para o povo. De algum modo podemos compreender o porquê o título de seu livro surge como um significado bem mais abrangente do que o próprio título nos quer informar, pois a dualidade a qual o filósofo se refere não para aí, mas segue em diante com outras dualidades que estão intimamente ligadas a natureza da metafísica, ou seja, céu-inferno, corpo-alma, salvação-condenação e etc. Nietzsche é considerado por muitos um filósofo da cultura, ou alguém que idealizou um mundo sob uma nova ótica, sob novos valores, valores esses que ele dedicou a maioria de seus escritos.  Seus escritos tem incomodado a muitos que se apegaram as regras já dadas, simplesmente aceitaram-nas em troca de respostas que acalentassem suas almas ávidas por uma quietude.  Mas para Nietzsche essas respostas permanecerão nos incomodando, simplesmente porque não é possível encontrá-las.  O que há disponível para todos nada mais é que “wille zur macht” ou vontade de potência, e essa sim nos impele a ser, a criar, a destruir, a transformar.  Ela é individual mas nos aparece como uma síntese universal, pois é ela que interpreta o que chamamos por realidade.  É desse ponto de vista que Nietzsche curiosamente vai se opor aos fatos, ou seja, se eles existem tal como se apresentam a nós. Segundo o filósofo, são meramente interpretações forjadas das forças, que dalgum modo expressas em vontade de potência suscita uma realidade, mas ela é enganosa.

O cristianismo é, portanto uma interpretação entre muitas, e, portanto, não pode ser a detentora de toda a verdade na terra.  Se tudo nos fosse absolutamente aparente, talvez não necessitássemos de tantas instituições religiosas cada qual com um caminho muito próprio para se chegar à salvação.  Isso nos demonstra que o que prevalece são as interpretações, ou as forças individuais interpretadas segundo uma vontade de fazer com que seus pressupostos se instalem no grande jogo das interpretações.  É verdade que elas surgem como qualquer outra, mas se reforçam ao passo em que mais adeptos a elas se filiam.  Isso significa que a verdade está para mais além daquilo que podemos contemplar, mas nem por isso, procuraremos pelas respostas de nossas muitas indagações em um mundo em que dele nada sabemos. 

E sobre isso o filósofo nos aponta o caminho em sua “Zur genealogie der Moral”: “Quanto maior for os olhares, de olhares distintos que saibamos empregar para ver uma mesma coisa, tanto mais complexo será nosso conceito sobre ela, tanto mais completa será nossa objetividade”, ou seja, entre escolher uma única perspectiva a outras tantas que se coadunam com o objetivo a que nos empenhamos – “a compreensão” o que nos será mais adequado? Isso dependerá de cada um.  É por esta razão que Nietzsche aponta que tipo de leitor se dará o trabalho de se aplicar na interpretação de seus textos.  Ele os chamará de hiperbóreos, um tipo único de ser que está muito além dos tipos ordinários.  Os hiperbóreos não aceitarão os fatos tal como eles nos aparecem, não descansará até que uma visão do todo seja formada, ainda que uma verdade não possa ser contemplada, mas insistirão na busca do entendimento. 

Mas isso nos dá uma forte sensação de estarmos caminhando em círculos porque as forças das quais Nietzsche faz tanta questão de mencionar, ele próprio e cada um de nós somos uma fonte de nascimento e destruição, ou seja, como poderemos lidar com essa sensação de nossa própria limitação? As forças são finitas porque são humanas, mas não podemos dizer o mesmo do movimento que se dá a partir das mesmas. Para manter o homem no caminho certo, ou seja, despertar o homem para uma postura de independência e de ampla visão em busca de uma compreensão que o eleve à um tipo superior de ser humano,  Nietzsche aponta para o “Ubermensch” ou o além-do-homem que estará mais preparado por suas próprias características a conviver com sua capacidade de superar-se no enfrentamento com o mundo disposto em enigmas, fragmentado em valores dos mais complexos.  Nietzsche não compactua com os valores do Cristianismo e há quem diga que sua filosofia as marteladas, no golpe inflexível de suas asserções seja também um deus em boa medida. 

Se os cristãos criaram um “Deus” também pode-se criar outros valores – como o próprio filósofo criou o seu “willen zur macht” e também o seu “ubermensch”, ou seja, é o homem mais uma vez criando, interpretando e criando valores. Mas o filósofo deixa bem claro que sua interpretação não é única.  A filosofia, como o próprio Nietzsche fazia questão de reiterar, é algo para os fortes, já os fracos usariam todo e qualquer meio para se apoiar em algo.  Tentar interpretar algo antes de aderir a ele é para muitos um árduo trabalho que pode levar anos e ainda assim mantê-lo ocupado por toda a sua vida.  É claro que a maioria dos homens não se dará o trabalho de investigar algo que para ele será tratado como algo comum ainda que lhes tire o sono, mas mesmo assim, não os espanta, o que com o filósofo já não ocorreria.  O filósofo investigará e denunciará através de suas interpretações multi-direcionais quais são os valores e a que interpretações se apóia o mais comum dos homens, e é isso o que faz Nietzsche.  A crise a que Nietzsche se refere não se dá na atmosfera intelectual propriamente dita, mas é aí onde ela é elaborada.  E nas grandes instituições, é em algum lugar onde há vontade de potência, mas nem sempre, aliás – o filósofo desconfia que esta suposta “verdade” jamais participa desses jogos de poder.  O Cristianismo que é o foco de sua mais ácida crítica nasce da confluência de duas tradições distintas: A dos filósofos gregos e o legado dos mesmos e a tradição judaica.

Em Nietzsche, a moral cristã não é superior, e tão pouco se encontra entre um ideal e outro, não é uma passagem. As críticas do autor são ácidas – e isso é fato, mas é muito importante prestar atenção nas entrelinhas, uma vez que Nietzsche não explicita, não sugere nenhuma ação, ou melhor, não prescreve a saída para os problemas que assolam a humanidade desde o advento do Cristianismo. Mas indica, mui sutilmente uma busca na sua teoria da transvaloração dos valores, ou seja, uma autêntica posição do homem em relação a si próprio, aos outros e a vida.  

Para Nietzsche, não é possível colocar a verdade como uma fonte única, nem tão pouco fazer uso de uma certeza imediata, aqui se mescla a vontade de potência envolvida em tudo tentando fazer valer sua autêntica notoriedade para a supressão dos demais. E o que se origina mediante tal postura é justamente o fato de que estamos sempre na tentativa de querer provar o quanto estamos corretos diante de algo que não é claro nem mesmo a nós fundadores e inauguradores de tais idéias, parteiros de bebês que se não nos avisam tomamo-nos em nossos braços e acariciamos nossas idéias putrificadas, nossa estúpida aparência de sábios, nossas vergonhas às claras, nossa soberba e tola teimosia de não querer entender o que dizem os outros.

Ora, essa criança a que acariciamos nasceu morta, nossas idéias já nascem rodeada de rosas malcheirosas, cercadas por espíritos fúnebres que olha um ser sem vida, fruto de suas elucubrações que se baseiam somente na dúvida.  ? Há quem diga que ele precisa ser salvo – mas ser salvo exatamente do que? Se há uma salvação a quem o homem de fato deve ser salvo, resgatado e recuperado – é em relação as chagas de sua cultura, sobretudo, religiosa e cristã que o renegou a uma posição demasiada inferior, pequena, servil e blasfêmica em relação a própria vida. Isso por acaso vós espanta, nós espanta? Tremamos todos diante da realidade que nos fala, de nossa honrosa estupidez, pois com ela suportamos a vida, enquanto deveríamos apenas viver. Sim, para os fracos, descrentes de si, presos a ficções, deveras, sim. E para os que não o são? O próprio impulso da vida revela-se nisto: na consideração do mundo como a criação humana, do homem para ele, por ele, com ele. O homem não pode temer a si. Por que temer a sua crença, ainda que ela seja devastadora e única diante do todo? Isso é uma negação de si mesmo; e isso é aterrador; é esquizofrênico, é paranóico.

O CRISTIANISMO

Em seu livro Der Antichrist, o filósofo reserva ao Cristianismo uma das mais ferrenhas críticas já feitas.  Na personalidade de Nietzsche, se fosse possível traçar – talvez descobríssemos alguns traços que nos ajudasse a melhor compreender seu ataque ao cristianismo e também de algumas das figuras mais  proeminentes na história do cristianismo. Houveram-se muitos comentários a seu respeito e não propriamente de sua filosofia, mas do que dela resultou – como sendo obra de um autor resignado, mas o adjetivo empregado tal e qual[1], ou seja, de um pensador que não mede forças com o que já esta estabelecido, não se revolta com a cultura de sua época, contra os vícios a que estão submetidos, a decadência dos valores ou sua submissão aos preceitos da igreja que tudo rege, em tudo penetra e tudo mata segundo a sua crítica mais feroz.

Talvez, em Nietzsche encontramos mais do que um resignado, um filósofo que além da coragem de observar atentamente as fases presentes de seu tempo, soube como poucos vislumbrar também que sua obra não falava apenas do presente, mas também dos problemas que ainda estariam por vir.  Não se pretende colocar nele o rótulo de profeta, mas simplesmente de achar a ele uma justa colocação no cenário filosófico do mundo ocidental, como pensador autêntico que soube tratar dos problemas da humanidade de uma maneira direta ainda que isso lhe causasse tantos dissabores.  Seu ataque, ao contrário do que muitos pensam, não é contra a figura do cristo e de suas estórias, que ele cresceu ouvindo falar de quando ainda habitava em Rostock sob a tutela de seus pais, mas, é, sobretudo, o que foi feito de seus ensinamentos – é possível ter existido em suas reflexões mais íntimas uma consideração ao cristianismo, mas esse cristianismo seria a própria vida do mestre e não a sujidade a que ele foi submetido, o que ficou foi à idéia, o símbolo, mas não sua essência, sua própria pregação, seu amor incondicional à humanidade.   

As reflexões metafísicas sempre foram palco de polêmicas e de críticas por parte dos pensadores.  Nietzsche não foi exceção, mas a regra.  Ele dirigiu uma das mais ácidas críticas uma vez já feita contra o cristianismo. Em sua reflexão: o que criou o cristianismo? O que o filósofo pretende relatar ao longo de sua vasta obra que trata do assunto, senão diretamente como o faz no “Der antichrist”, Fê-los em forma de aforismos ou em capítulos com temas diversificados. Em sua reflexão é aparente os temas como o homem com medo, a esperança fundada no nada, a condenação do homem, o descrédito em relação as suas forças, a negação da vida e das vontades próprias do homem. O aniquilamento do individuo para que prevaleça o coletivo

O que há de errado com o cristianismo? O homem não precisa do cristianismo, porque se basta a si mesmo, e em outros aspectos porém, sem as fantasias religiosas, sem as promessas de um mundo melhor, de outro plano onde possa existir num perfeito estado de felicidade, uma salvação para sua alma, o homem ao invés de perecer, desenvolve-se, transpõe seus obstáculos naturais, supera-se e torna-se autêntico ou simplesmente humano mas não mais uma figura desumanizada como o quer o cristianismo deturpado, eclesiástico, sacerdotal e de casta.  E se nos questionamos sobre o pecado adâmico ou original? Temos por acaso uma culpa, estamos nós purgando pecados e débitos ainda que não compreendemos nada sobre tais coisas?  E ainda que haja forças ou uma entidade metafísica que vive e coordena o universo, ainda nos é difícil afirmar que o homem tenha que pagar por cada um de seus deslizes, de cada recaída, de cada ação que não só surpreenda, mas ultrapasse a expectativa de nossos semelhantes, e os choca. Por que temos que viver com esperança num além-mundo, quando temos aqui tudo o que precisamos? Ora, não é a esperança a mais insultada e perseguida virtude entre os gregos? E por que os gregos desconfiavam do que podia nos proporcionar a esperança? Ora, é ela responsável por tirar do homem o seu foco no momento presente, na sua realidade em troca de um porvir, de uma transcendência insegura, sem respostas para as muitas indagações que o ser humano trouxe átona.   

Quantas teorias, signos e elucubrações a respeito de um assunto que apenas se conjectura.  Estamos sempre a pegar rabeira na tradição, no discurso – mas por que? Por medo, por receio de blasfêmia? Mas como poderá blasfemar sobre algo que não se entende? O homem simples virou degredo em sua própria morada, em seu habitat natural.  Onde deveria haver paz em abundância, fez-se guerras religiosas para impor um pensamento, um dogma, uma verdade que não se sustentava por si mesma e precisava da força de seus representantes, de seus algozes e mártires – que já não eram mais fiéis ao seu Deus.  O homem corrompeu-se e assim surgiu o mal, este se tornou a regra.  Mas como sempre há os seus contrários e ao longo da história do cristianismo surgiram muitos que compreenderam a deturpação dos valores que se mantinham na primeira formação do cristianismo e denunciaram, e os lançaram em rosto, e debateram até que se pudesse ver não a verdade, mas o poder do coletivo já instalado, já como regra, já como pedagogia para o povo que agora o defende mesmo sem entender as intrincadas explanações dos signos que o sustentam. 

A igreja ganhou espaço, fixou terreno, estabeleceu e consolidou os seus dogmas e assim garantiram a supremacia da religião – agora também mascarada de Estado. Não há mais as verdades do Cristo, que já teve uma cisão com a pessoa de Jesus – há problemas outros que os incomodam, a política, os hereges, e outras denominações de sua época quando suas raízes acabavam de ser lançadas. O que fizemos ao longo da história senão criar idéias românticas sobre o legado deixado pelos grandes mestres que nos precederam? Nem mesmo esses pensadores de proeminência admitiriam todo esse culto a eles, mas prefeririam ao invés disso, uma atitude filosófica de engajamento, de exame minucioso, de investigação, de desconfiança mediante aos temas propostos e suas conseqüências.  Hegel, filósofo alemão do século XIX – nos lembrava que em algum dado momento todo filósofo um dia foi espinosista, de quando se referia aos seus contemporâneos ou mesmo os que vieram depois dele, mas já podemos dizer isso também em relação a Nietzsche, sua atitude de reprovação, de descontentamento com sua época, com as mazelas da sociedade, com as regras já estabelecidas, com o faz de conta, assim como a miséria religiosa que atingiu até mesmo os grandes filósofos.

Nietzsche nunca escondeu sua revolta como pensador em relação à religião ou tudo que fosse religioso, por isso, ele interpretava tudo isso como derrota, desânimo, submissão, impotência, fraqueza, niilismo, suicídio, submissão e morte.  Eis aí o maior pecado dos cristãos: a negligência, a capacidade destrutiva, putrificante, desesperada e contrária a vida – a essa maravilha, essa oportunidade de sentir, contemplar e viver uma existência baseada nas suas vontades sem se afastar da idéia de cooperação mútua com as demais espécies, sem inventar meios de apaziguar seus medos, suas frustrações, suas incapacidades, sua falta de recursos para superar-se que foi minada ou esta se deixando se contaminar pelo niilismo.  Então não inventamos uma estória que nos persuada a ter esperança num mundo metafísico, se tudo já esta dado, já é fato, já é perceptível e nós somos todos parte de um mesmo sistema.  O filósofo escrutina o que de algum modo o espantou, o assombrou e finalmente tirou-lhe a paz que era o usufruto de uma vida onde as coisas fluem tal e qual sempre o foi. Eis que um dia a razão que o envolve e inspira sua natureza filosofante causa-lhe espanto em relação a algo que era comum a todos e inclusive a ele. 

A religião – sempre teve sua posição política bem definida quando as vantagens para a cúpula de seu clero abastado, as influências já asseguradas em todas as classes que a ela se encontravam subordinadas.  Enfim, a igreja tem sido um instrumento de legalidade para dominar e fazer dormir seus fiéis, enquanto eles viviam folgadamente o santo prestígio da atividade clerical que em síntese jamais coadunara com os valores niilistas que exortavam a seus fiéis quanto à necessidade de se purificar. O que se tornou a vida? Antes de assassinarem Deus, primeiro se preocuparam em atacar suas creaturas que professam sua existência, seu poder, seu amor, sua aliança de amizade com os humanos criados a sua imagem e semelhança.  A história é nossa aliada e Nietzsche não deixou de investigá-la para descobrir o que havia de mais verossímil na história da humanidade.

Uma vez que suas bases foram assentadas, e a igreja foi bem sucedida em suas guerras contra o protestantismo no século XVI, contra os maniqueístas no século V, nas cruzadas européias contra os judeus e árabes no século X, as conquistas ultramarinas, as guerras do islã contra o judaísmo, o massacre contra os cátaros e valdenses no século XII e XIII.

A MORAL CRISTÃ

O que é de fato a moral cristã?  A moral do cristão não é outra coisa senão a moral da culpa, do medo, do arrependimento, do desapego às coisas da vida. Mas não é a vida uma dádiva de Deus? Se a resposta é positiva, então porque temos que rejeitá-la? Ergue-se aqui grande paradoxo, ou seja, pode Deus ter criado o universo para diverti-lo? Somos nós marionetes animadas, ou seja, com vida apenas para servir aos desejos de um deus que não aprendeu a brincar? Um deus tedioso que precisa de entretenimento para tirá-lo de sua ociosidade divina? Então por que Deus[2] criaria o cosmos e um único planeta para exatamente ali inserir uma espécie tal que o servisse e o amasse? Se esse era o propósito então porque condenar os homens? Por que educá-los através de uma teologia que negue a vida, o que há de mais sólido para o homem?  

Mas onde estão as respostas das religiões? Tudo o que nos dizem é: Tendes fé e tudo se revelará a você.  A verdade se descortina somente quando deixamos de indagar.  Mentes inquiridoras tornam-se cegas porque não estão abertos aos milagres da fé. Eis, as justificativas, mas também crêem os inquiridores, os racionalistas, também cria Spinoza, Leibniz e Descartes.  Também creu Anthony Flew o mais famoso ateu contemporâneo de nossa época que ao final de sua vida enxergou a beleza do criador, mas nunca deixou de se perguntar por que as coisas eram dessa e não de outra forma. E porque fizeram nos acreditar que somos seres tão pequenos, tão desprezíveis, sem valores, culpados de ter nascido? Por que nos impõem que não se deve revoltar contra o Pai, pois isso é motivo de castigo, de vingança?

Por que devemos ser um cárcere onde se expia culpas eternas? E o pecado adâmico ou original – há por acaso uma explicação plausível que possa lançar luz a esse ser mitológico que não traz outra coisa em sua idéia, a não ser, mais dúvida. Os próprios filósofos se limitam simplesmente a passear mui vagarosamente em torno do assunto – e nós já sabemos que não é um simples fato que se possa submeter a razão, há necessidade de outras fontes, por enquanto – construíram textos, discutiram longamente e incansavelmente sobre o tema mas ainda estamos longe de uma resposta segura, e muito provavelmente nunca a ela chegaremos devido ao perigo e quiçá, o escândalo a que isso poderá causar no mundo habitado por seres humanos.    A vida - essa dádiva, já compreendemos que uma vez em posse dela, ou dela participando é evidente que encontraremos limites que em boa hora cedo ou tarde virá sobre cada um de nós; mas precisamos dizer não a ela? Sofrer por antecedência, agir como se estivéssemos de resguardo para o eterno, vivendo a cada dia como se isso fosse meramente uma passagem? Isso é certamente fazer o homem menor do que suas próprias limitações de ordem natural é lançá-lo violentamente ao chão e pisoteá-lo.

O CRISTÃO COMO EXEMPLO DE SUPER HOMEM

Nietzsche argumenta que:

‘verdadeiro’ será, neste caso, aquilo que é mais prejudicial para a vida; ‘falso’ será tudo quanto a eleva, realça, afirma, justifica e a conduz ao triunfo… Quando sucede que os teólogos, através da ‘consciência’ dos príncipes (ou dos povos), estendem as mãos para o poder, não duvidemos do que realmente acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder…

Ora o que é o cristão para Nietzsche? O entregar-se de modo total e absoluto numa idéia que não sem interesse, muito bem nos conduz segundo os dogmas que cegamente professam, eis aí a chave para uma vida de cristão! Não há um andar vacilante, mas um andar as cegas, não há tão pouco um tatear porque muito pouco ou quase nada nos deixa como referência ao longo do caminho, daí permanecemos inseridos no rebanho simplesmente porque temos medo ou uma necessidade de conectarmos com algo que seja maior do que nós.  Nesse processo de pedagógico para a massa – que não atinge a todos com o mínimo, ainda que  sonhássemos que isso fosse possível, mas não só isso, porque os alicerces da igreja de Roma é não só obscuro mas complexos para compreende-los. 

Há divergências entre historiadores, filósofos, historiadores da filosofia e mesmo entre antropólogos e teólogos sobre o período em que a base da igreja ser formara, ou seja, a teologia tornara-se algo extremamente complexa ao longo dos séculos e pouca importância foi dispensada com o intuito de aprender o significado da liturgia da igreja, a história de sua constituição, as bases pelas quais se originou o dogma – a veracidade dos textos ali agrupados nas sagradas escrituras bem como a organização e legalidade de seus principais livros, ou seja, o que já é complexo para os doutores da própria igreja, que se alimentam dos mesmos textos, porém, com uma interpretação que não passa ao largo da tradição, mas repete-a sem se dar conta que não desconfiaram, não perscrutaram as raízes, a situação sócio-cultural de seus escritores, a posição geográfica e o entrelaçamento com culturas diversas como é de nosso conhecimento.

Com isso, a fé é a única esperança para o cristão – sem conhecimento, sem coragem para adentrar o labirinto que é a origem da fé que ele mesmo professa, ele se entrega a uma vida de ritual que apesar de prestar atenção não satisfaz sua mente inquiridora.  Todo e qualquer questionamento, é visto com reservas por parte de seus irmãos na fé, membros da mesma instituição e que confabulam ou carregam o mesmo pesado fardo da dúvida, mas para não se passarem por espíritos facciosos dentro de sua comunidade religiosa calam-se e fazem a vontade dos clérigos da igreja. 

Já não é Deus quem nos cala, mas o poder eclesiástico quem nos quer calar, nos acusar de heresia, de apostasiar, de blasfemar contra, de pretensão e etc. Até que ele entre numa profunda zona de ausência de sentido ele já terá negado boa parte do que ele é, seus principais dotes intelectuais, seu corpo, sua mente, sua coragem, seu orgulho de ser homem, de sentir-se humano, livre e, enfim, o aniquilamento da vontade que é o seu golpe fatal.  Antes de mostrar o paraíso, a igreja moldou a sua mente para que tu entendesses o quão necessário é a “igreja do senhor”, sem nunca antes mencionar a quem de fato eles servem.  O cristão esta pelo estatuto e regras da comunidade aconselhado e admoestado para que não tente, não ouse, não veja, não sinta e não seja.

Dessa forma, o filósofo expõe: O que é cristão é um certo instinto de crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de maneira diferente; a vontade de perseguir. E mais adiante, revela: O que é cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem do espírito; o que é cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral…

Daí as conseqüências de todo um modo muito específico de ser; a submissão as interpretações por parte do alto clero e seus subdepartamentos. Para tanto, o cristianismo intenta dominar a ferocidade humana, tornando os homens fracos e doentes. Nietzsche já disse: … o enfraquecimento é a receita cristã para a domesticação, para a ‘civilização’. Para se ter noção disso, basta um lançar de olhos sobre a história, utilizando-nos dos exemplos acima mencionados.  O que ocorreria se todos os cristãos se instruíssem? Mas digo os cristãos sem aquela típica tendência ao fatalismo, a miséria, ao olhar nivelado ao chão, rastejante, mendicante, sem vida, sem nada. Enfim, o niilista par excellence, a caricatura do ser humano em sinal de prostração, de derrota e de perda total de si.

Me refiro ao homem, cristão, primeiramente homem – e que ainda que fora uma vez tragado, seduzido – mas agora de ouvidos abertos, de olhos compenetrados sob os registros da história e com os sentidos prontos para um entendimento superior – não digo racional, mas meramente – menos ou totalmente desprendido dos dogmas ensinados a ele pela catequese – pela repetição descabida de seus repetidores, na via dos ensinamentos de Paulo que segundo o filósofo é o mais alto símbolo do cristianismo pervertido, do ressentido que conhecendo os ideais gregos – assenhoreou-se dos ensinamentos do Cristo, do nazareno, digo do homem ainda na sua pureza, sem a pretensão de iniciar um dogma, de constituir uma igreja e ser a cabeça dela.  O homem que jamais travou uma guerra entre nós, nem tão pouco condenou o corpo, nem criou dualidades e jamais pretendeu salvar alguém.  Jesus era um espírito livre e Nietzsche afirma que sua pureza era tamanha que mesmo as orações e ritos já não eram mais necessários para o seu contato com Deus[3]. O homem é livre para ser, para sentir-se divino – o que não é a mesma coisa de ser, e que isso fique bem claro – é a prática que nos conduz o fazer o bem, o ser justo, o amar a vida – não necessariamente implica que para isso atingir, necessitamos do cristianismo como ponte, como meio.

A história nos mostra sinais desse tipo de homem – o homem libertado das correntes do cristianismo, o homem certo de que há mais por trás do que nos é ensinado, por trás do que já é fato e já esta acabado – o homem que rejeita a tradição.  A igreja católica teve os seus momentos de aflição de espírito, e a natureza é tão justa, tão sábia que nunca nos deixa de nos enviar Galileus, Keplers, Giordanos.  Assim, precisamente entre os séculos XIV e XVII – surgiram não só movimentos, mas homens de proeminência que ousaram colocar objeções aos postulados da igreja.  O preço era alto, mas eles não estavam sozinhos – em cada ponto da Europa haviam homens que buscavam a compreensão do mundo sob uma outra ótica e quando essas inquietações começam a chamar a atenção dos cortesãos, homens da política, pensadores e outros, tudo parece estar muito bem – até que a crise desce das camadas mais altas da sociedade e chega até os plebeus – é escandaloso, é perigoso – tais dogmas serem contestados nas camadas inferiores da sociedade. 

Henrique VIII na Inglaterra e sua dissensão com o Vaticano, Erasmo de Roterdã que se tornara um algoz também para as autoridades clericais, Martinho Lutero que de dentro da própria igreja promoveu uma onda de contestações que forçava a cúpula do Vaticano a retratar-se, no entanto, com chance de defesa enquanto pensavam estar acusando-o de herege ou apostata, mas submetidos ao jugo de suas palavras e de suas interpretações que fizeram ruir, até mesmo parte da liturgia tradicional da igreja universal.  E o cristianismo seria refutado? Não, a Igreja fora contestada, fora questionada. Filósofos, cientistas, até santos da própria igreja, que denunciavam o poder religioso, que queriam o conhecimento humano acima de tudo, tiveram que ser calados, perseguidos, queimados. E deu-se início à Caça às Bruxas, a perseguição ao herege, à ciência, ao livre pensamento, à liberdade, ao homem. A ideologia da vingança da Igreja Cristã mostrava todos os seus dentes e dotes. A fé transmudou-se em sangue, espada, dor, sem necessidade de provas.

E os ultrajes disparavam em toda a Europa. Lutero, da própria Igreja, resolve sublevar, mas em seu próprio benefício, o que nada instituiu de novo, pois a lógica do pecado, da culpa, do medo continuaria a mesma, com exceção de que o Verbo não teria mais como porta-vozes o clero, a santíssima igreja de Paulo, mas o leigo, o povo, as interpretações, em cada região européia, das escrituras sagradas. Lutero não negou o cristianismo, ele também queria o poder; não lhe satisfazia a versão única da Bíblia, ele queria adeptos para as suas palavras, embora essas fossem nada mais que reverberações similares ao que já estava sendo pregado. A punição, a expiação, o terror ainda viviam. O cristão parecia vencido; pelo menos, estava chamuscado com o próprio fogo.  Posteriormente filósofos como Spinoza e outros moveram também contra os dogmas uma interpretação que levaria a Europa a um sentimento de inquietação.





Gilmar Silva dos Santos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nietzsche, F.W. Para além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 2 ed.

Nietzsche, F.W. O anticristo: Tradução de Pietro Nasseti.  São Paulo: Martin Claret

De Moura, Carlos A.R. Nietzsche, civilização e cultura.  Editora Martins Fontes.



[1] Dicionário Houaiss  - Editora Objetiva – pág. 453. adj. Que se submete pacientemente a uma força superior. Que suporta um mal sem se revoltar; conformado: doente resignado.Conformar-se, submeter-se, entregar (cargo), abdicar-se de algo. 
[2] Nota do graduando: Optei por usar letras maiúsculas para me referir a Deus, sumo bem, ideal cristão, onipotente e onipresente em detrimento da mesma palavra com letra minúscula para se referir as elucubrações da idéia de deus com o mesmo significado aplicado ao primeiro.
[3] Nietzsche, Friedrich – O anticristo – Editora Martin Claret – aforismo 36 pág. 68 § 3

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Das investigações sobre o entendimento humano
E a existência de Deus através da razão



Ao longo das investigações sobre o entendimento encontramos um sem número de preocupações do filósofo acerca do modo como o ser humano apreende o mundo no qual ele está inserido.  Não nos surpreende, no entanto, o fato de iniciar sua obra fazendo uma distinção entre um filósofo que do assentimento da importância da moral constrói todo o seu sistema tomando do comportamento humano, exemplos dos mais variados e não hesita em selecioná-los para trazê-los à luz do entendimento humano, tarefa essa que, embora árdua, traz a esses filósofos um sentimento de alívio e satisfação por terem, não somente encontrado quem os ouvisse, mas, sobretudo quem os compreendesse. 

Por outro lado há quem difere desse tipo de engajamento filosófico, pois, os filósofos empenhados nas ciências da natureza humana priorizam o entendimento em detrimento do cultivo de nossos costumes.  O objetivo desses pensadores é, todavia, o alcance dos princípios originais que limitam o saber humano em qualquer ciência.  Esses, todavia, sentem-se recompensados se seus esforços em busca da verdade, os conduzir ao encontro de verdades que possam talvez não contribuir de imediato para o mundo no qual vivem, mas que certamente contribuirá para o futuro das pesquisas similares empenhadas nesta mesma direção.

Esse último espécime de filósofo é sem dúvida um inquiridor nato, pois não se cansa de tentar lançar luz aos seus postulados ainda que todo tipo de obstáculos se levantem contra ele e sua filosofia.  Esse pensador implacável não desviará de sua meta, enquanto outros param no meio do caminho e cedem a preconceitos religiosos, ele continua em busca de mais evidências. A perspectiva humiana é que, tal pensador deve, sobretudo, investigar incansavelmente a natureza do entendimento humano de modo a poder demonstrar que aquilo que é abstruso, ou seja, incompreensível e ainda remoto não são passíveis de assimilação pelo entendimento humano, pois seus poderes assim como suas capacidades são inferiores para tal aprofundamento.  Eis aqui o filósofo que toma para si o pesado fardo de trazer átona novas perspectivas, ou desmistificar um ou outro obstáculo para contribuir com o progresso do reino dos homens, e se tornar ele próprio um benfeitor da humanidade.



“The sweetest and most inoffensive path of life leads through the avenues of science and learning; and whoever can either remove any obstructions in this way, or open up any new prospect, ought so far to be esteemed a benefactor to mankind”. (IHU-section I part 10)



Hume considera, no entanto que a filosofia abstrusa é, todavia, vulnerável mediante a possibilidade de cair em erro, pois o objeto da qual ela trata é muitas vezes incerto sem mencionar o fato de ser uma pesquisa penosa em um campo muito vasto, repleto de contradições.  Daí, ele enfatizar a metafísica como modelo supremo dessa espécie de filosofia, e não o fez por mero acaso, mas por ter ela todas as características que coadunam com as preocupações do filósofo.

A distinção feita entre pensamentos ou idéias de um lado e do outro as impressões demonstram, segundo a perspectiva de Hume que as primeiras sendo menos fortes, mas vivazes e diretamente ligadas a nossa consciência, é, no entanto livre não só da natureza assim como também o é da realidade, uma vez que livre está para pensar o que quer que seja sem que a resultante de seu pensamento tenha necessariamente alguma conexão com a realidade do mundo das coisas. Por outro lado, as impressões vão diferir das idéias, uma vez que a impressão é aquilo que de imediato nos afeta agora através de nossos sentimentos de ódio, nossa visão ou o que é exteriormente captado por ela, ou seja, aquilo que vemos, assim como o exercício de nossas vontades.  O que parece ser bastante intrigante é o fato de Hume inferir uma conexão direta entre uma idéia que temos sobre algo e uma impressão semelhante.
 

“We may prosecute this inquiry to what length we please; where we shall always find, that every idea which we examine is copied from a similar impression.” (IHU section II 6)
 

Sendo assim, claro está que no tocante a religião fundamentada na idéia que temos de Deus segundo sua declaração, a religação que considerável parte da humanidade sente em relação a um ser supremo é não só pueril, mas destituída de todo e qualquer sentido.  Ora, sua afirmação polêmica remete-nos a idéia de que Deus sumamente bom, tal e qual nos o concebemos é fruto da capacidade que têm nossas idéias que são ilimitadas, de inferir a existência de seres com tais e tais características que de modo algum podemos provar, ou seja, nosso cérebro é dotado da capacidade de produzir idéias ilimitadas, mas prová-las foge-lhe inteiramente de suas possibilidades.

Nos diálogos sobre a religião natural, Hume inicia com os personagens criado por ele uma discussão para ampliar as perspectivas da religião natural acerca de um Deus “sumo bom”, assim como as verdades difundidas pela religião revelada.  Quanto a essa última, Hume não hesita em sustentar que, as religiões sem nenhuma exceção afirmam verdades religiosas, mas que, uma vez analisadas sob a luz da ciência, tais afirmações entra em choque com uma diversidade de pontos de vista acerca desse problema.

            Observamos que nos diálogos, o personagem Cleantes toma uma posição a favor da existência de Deus a partir do “argumento do desígnio a posteriori” que foi extremamente difundido e discutido por membros da comunidade filosófica, sem, no entanto deixar de ganhar adeptos entre cientistas de proeminência no século XVIII.  Este argumento está baseado em duas vertentes que asseguram fortes implicações para a discussão, ou seja, uma probabilidade nomológica que significa as normas ou leis no universo que exprimem o seu mais perfeito funcionamento.  Por outro lado, há outra versão. A teleológica que significa os fins ou propósitos para o qual tudo existe, portanto, há que se ter uma intenção ou vontade por traz dos mistérios da natureza.

            O argumento do desígnio sob o ponto de vista cético é meramente uma falsa analogia. Afirmar que o ajustamento do universo, ou seja, o efeito que percebemos tal e qual e de acordo com o significado que damos a ele, ora teleológico e em outras circunstâncias ou sob outro ponto de vista das leis que há na natureza não é necessariamente um argumento que simplesmente podemos confiar.  É possível partir dos efeitos para a causa?  Podemos inferir alguma coisa, acertadamente, acerca da criação do mundo quando jamais estivemos lá para dar testemunho?  Não é, pois claro e evidente que aquilo que percebemos no mundo natural, já nos causa espanto o bastante e ainda assim, não chegamos ao ser das coisas? Não encontramos na tradição filosófica, e de modo revolucionário, que apreendemos os fenômenos, mas não o seu ser-aí?  Não poderíamos inferir, do mesmo modo que afirmamos tão acertadamente, que a ordem e desígnio que há aqui pode não haver alhures? Ora, por que razão, afirmamos que a origem do universo tem sua causa no divino? A posição de Hume quanto ao ceticismo[1] é cautelosa, mas isto se dá porque o cético difere em muito de um filósofo teísta que utiliza de um discurso onde seus postulados são colocados de forma assertória, enquanto o cético suspende o juízo para não correr o risco de cair na contradição, mas também porque visam através de tal atitude um dia alcançar a verdade[2] de algum outro modo sem ter que se precipitar para dar uma resposta.

            Mas estes filósofos não param aí.  Há neles uma peculiar atitude em relação aos nossos próprios sentidos.  Daí observa-se que a revolução das ciências iniciada no século XVII, fomentou ainda mais essa busca de entendimento plausível da natureza que começou a colocar em questão as explicações finalistas que até então uma tradição de filósofos, sobretudo os racionalistas, haviam dado às questões de requinte como a alma, o mundo e Deus.  Avanços no ramo da biologia, da química e também na astronomia contribuíram para o desenvolvimento do argumento do desígnio.  Mas havia também o argumento cosmológico amplamente discutido por pensadores que procuravam dalgum modo elucidar ou contribuir para possíveis avanços nesta área.

            A teologia natural, imbuída de seu dogmatismo e fortemente estabelecida por suas verdades de razão vai se unir, em busca de um “bem” que oxalá seja comum a todos, com as ciências naturais que contrariamente tem seus princípios fundamentados em verdades de fato e caminha otimista na esperança de explicar os fenômenos e o que há por traz deles.  De que forma a religião poderia estar ligada a estas duas vertentes?

            O argumento do desígnio assim como o cosmológico é baseado em uma concepção a posteriori, uma vez que tanto um quanto o outro estão baseados no mundo físico, mas entre estas duas concepções há algumas diferenças.  O argumento cosmológico irá se fundamentar na existência de Deus através da existência do mundo, ou seja, se todas as coisas têm uma causa faz-se necessário que aquele que é o princípio ou ato puro viabilize a existência de outros seres.

            Já no argumento do desígnio, há, sobretudo, uma vontade ou intenção que mediou todo o vir a ser das coisas. Ora, essa acessibilidade que está para o homem e que o capacita a fazer inferências acerca do mundo está também para a vontade que exprime sua razão de ser.  O filósofo inglês John Locke, que não era cético escreveu em seus ensaios algo semelhante aos céticos acerca da suspensão do juízo, mas bem analisado verificamos que a posição de Locke está mais para o bom senso e honestidade, visto que algumas coisas não são passíveis de conhecimento e, portanto, a insistência de sua busca terá tudo para ser infrutífera.

            Se, portanto, considerarmos que o “profundo” estabeleceu leis que regem a natureza, de modo que não conseguimos demonstrar nenhuma das idéias naturais, mas somente assinalá-las, ou seja, indicar, destacar que seu mistério jaz em Deus. Digo a coerência, a continuidade (das outras partes da matéria), a produção de sensação em nós através de suas cores, sons e etc. Locke aqui conclui que as regras originais, assim como os impulsos do movimento bem como estes acima já citados em nada contribuem para uma possível conexão natural das idéias, portanto, assinalamo-las.

Se não há uma ciência perfeita em relação aos corpos naturais que possam demonstrar sua ação, e como elas reciprocamente diferem uma da outra (ao menos, no tocante ao efeito, uma vez que sua causa não nos é possível conhecer), Cabe-nos somente aquele conhecimento que advém da experiência. Locke concluirá dizendo que estamos longe de possuí-la, devendo, portanto, interromper sua investigação.  Atitude como se vê, não de um cético, mas de um filósofo que soube reconhecer ao menos suas limitações ao tentar dar respostas às indagações que simplesmente não dispunham de nenhuma conexão com a realidade, o que resultaria em mera especulação.

            Quanto à existência de Deus, Hume afirma não haver nenhum fundamento que dessa idéia podemos inferir, no entanto, considera insuficientes os argumentos que tratam os objetos independentes de nossa experiência como postulados da existência de Deus, ou que Deus assegura a existência dos mesmos ainda que escapem a nossa percepção e em nada possam contribuir ao nosso conhecimento acerca das coisas. Mas por que devo eu acreditar na existência de Deus? Hume aponta para uma resposta a essa pergunta na história natural da religião se baseando em duas corrupções da religião. A superstição, que normalmente está associada com a idolatria e que tem sua fonte na fraqueza, medo, melancolia e ignorância que é manifestada em cerimônias, observações e sacrifícios diretamente ao agente desconhecido.[3]

“Os dogmas especulativos da religião, que dão presentemente ensejo a tão acirradas disputas, não poderiam ser concebidos ou aceitos nos primeiros tempos do mundo, quanto à humanidade, sendo completamente iletrada, formava da religião uma idéia mais apropriada à sua fraca compreensão, e compunha seus dogmas sagrados mais a partir das lendas que faziam parte das crenças tradicionais do que a partir de argumentos e discussões”. (EHU seção XI 3)



            Quanto ao entusiasmo, que normalmente está associado aos novos convertidos e principalmente aqueles devotos de seitas protestantes representam um tipo de religião corrompida pela emoção fanática ou mania religiosa.  São comuns os transes, momentos que a divina inspiração, como eles mesmos dizem, os visita através do espírito santo que é objeto de devoção.  Hume nesta passagem acima citada de sua mais divulgada obra refere-se às pessoas simples como um todo, ora não devemos imaginar que este deus dos filósofos mais refinado e cheio de atributos, seja o mesmo adorado por aquelas pessoas iletradas e submissas aos poderes da natureza.  É claro que o povo humilde, assim como os filósofos criam em algo, porém esta relação com o divino se dá em diferentes matizes. 

            Não há dúvida quanto à erudição de Hume quando o assunto é metafísica e religião.  O filósofo escocês (da tradição inglesa) era bastante familiarizado das tradições racionalistas de sua época, assim como conhecera muito bem os gregos.  A razão é a causa das grandes discussões em torno desse tema que marcou época.  É como se a razão visse as coisas, sem poder de fato enxergá-las nem tão pouco explicá-las tais como são, não há, pois contornos, nem volume nem cor, mas apenas uma verdade que ao menos é persistente e inquiridora na tentativa de descobrir esse mistério teológico que ainda assombra e inquieta as mais brilhantes mentes.  Vejamos em Descartes como ele contribuirá para a compreensão desse fenômeno:



“Como seria possível que eu pudesse conhecer que duvido e que desejo, isto é, que me falta algo e que não sou inteiramente perfeito, se não tivesse em mim nenhuma idéia de um ser mais perfeito que eu, em comparação ao qual eu conheceria as carências de minha natureza?” (Descartes, Meditações)



            Nas objeções II, “concerning the ideas of God and an infinite number” Descartes aborda o assunto da imperfeição do indivíduo na tentativa de buscar acertadamente a existência de um Ser sumamente bom: “Enfim, quando Deus é dito inconcebível, por isso se entende uma plena e inteira concepção, que compreende e abrange perfeitamente tudo quanto há nele, e não essa concepção medíocre e imperfeita que há, em nós, a qual é, no entanto, basta para conhecer que Ele existe.”[4]  Foi em suas reflexões que Descartes encontrou o caminho seguro para estabelecer um Ser mais perfeito, partindo do primeiro princípio da filosofia que buscava - e que por sua vez, segundo ele, estava seguro até mesmo do ácido cético que destrói toda e qualquer proposição – Cogito Ergo Sum, é pois, a proposição que faz Descartes inferir que, por não poder assegurar a si mesmo que ele está a dizer a verdade recolhe sua proposição e vê adiante a possibilidade de haver um Ser mais perfeito que ele próprio.

Uma vez consciente de que em outras circunstâncias ele fora enganado Descartes decide caminhar por outras vias que diferentemente das outras possam assegurar-lhe um firme conhecimento do mundo, e, portanto, passa a crer somente nas idéias que estavam baseadas na razão em detrimento das idéias sensíveis e infrutíferas, que ele já havia experimentado.  Nesse sentido Hume nega veementemente a posição cartesiana, pois a razão não é suficientemente o bastante para conhecer o mundo, este não pode ser conhecido.

         “Admite-se que o máximo esforço da razão humana é reduzir os princípios, geradores dos fenômenos naturais, a uma maior simplicidade, e resolver os muitos efeitos particulares numas quantas causas gerais; mas relativamente às causas dessas causas gerais, em vão tentaremos a sua descoberta, nem alguma vez conseguiremos satisfazer-nos mediante qualquer explicação particular delas.” (EHU, 26, p.35)


Na grande massa como o próprio Hume descreve na nota anterior (seção XI, 3 das investigações), sua causa esta relacionada majoritariamente com os revezes que estas pessoas esperam de um deus antropomórfico e terrível.  Tal atitude esta intimamente ligada a uma cultura mais antiga que antecedeu o cristianismo e que só foi sucumbindo paulatinamente.  O próprio Paulo quando prega no areópago utiliza-se de um discurso que se justifica no próprio costume do povo e na cultura local.  O apóstolo para não ofender o sentimento religioso local tomou a palavra e não hesitou em fazer menção “ao deus desconhecido” que os gregos cultuavam, assegurando a este, assim como aos outros deuses uma estátua que os reverenciava. 


“As primeiras idéias religiosas não nasceram da contemplação das obras da natureza, mas sim da preocupação com os acontecimentos da vida e das esperanças e dos medos[5] que incessantemente percorrem a mente humana”


Como não há experiência humana na contemplação desses deuses, mas apenas uma aceitação obsequiosa de uma sociedade que têm como norma adorar certos deuses.  Imaginamos, pois, que viver em uma sociedade onde devemos crer nos deuses do Estado seja a regra e que por uma desventura, caso alguém tente introduzir novos deuses ou mesmo não lhe prestar as devidas homenagens, terá que se submeter aos revezes por seu ato individual.  O próprio Sócrates fora vitima de um sentimento religioso pré-estabelecido e devidamente reconhecido pelo Estado.  Em uma de suas acusações constava a não-reverência aos deuses reconhecidos pelos membros da Pólis. Bem, vimos que inferir o que quer que seja a uma divindade é recorrer a um argumento falacioso.  São sentimentos e devaneios, todos eles bastante peculiar a natureza do homem somado a submissão que este deve conferir a vida comunitária, os responsáveis por esta aceitação da figura de um deus como legislador do universo e mantenedor de uma finalidade para todas as obras da natureza.

Se há no homem de ciência uma tendência incontrolável para fazer uso somente dos dados da razão em detrimento daqueles sensíveis como encontramos em Descartes, há, portanto, também um impasse quanto à apreensão do conhecimento.  Ora, não recebemos do mundo impressões isoladas, vislumbre que ora apreendemos de um modo, ora de outro e o mundo exterior a nós, ainda que não aceitemos, continua lá a nos afetar e nosso espírito permanece passível? Bem, o que pensamos, sentimos e fazemos está sempre relacionado de algum modo com uma ordem e uma relação com o mundo, que com suas próprias leis nos predispõe através de nossos sentidos, o que Hume pensava não serem suficientes ou de nossa razão como queria Descartes. 

O argumento do desígnio força-nos a uma melhor compreensão do conceito de causa e efeito, principalmente, quando Hume é o protagonista dessa posição, no entanto, há outro pensador que também marcou profundamente o século XVII em torno dessa questão que envolve o argumento, ou precisamente, uma das partes em que se divide a compreensão do argumento.  Em Espinosa encontramos ao longo de sua obra ataques fulminantes quanto ao significado do termo “finalismo” que ele diz afetar, não somente ao mais simples de todos os homens, mas também aos filósofos. Para Espinosa, o finalismo está intimamente ligado a ignorância e na incapacidade do homem de lidar com os mistérios da natureza sem ter que nomear um Ser que seja o legislador de suas leis. 

A crítica de Espinosa pautada nos textos da bíblia sagrada demonstra um trabalho exegético singular na história da filosofia.  Para Espinosa todo e qualquer fenômeno que foge a capacidade do homem de uma possível explicação torna-se logo objeto de uma intervenção divina.  É a vontade de um deus o centro de onde emanam todos os acontecimentos perceptíveis na natureza, e é assim que o homem ignorante e supersticioso infere sem hesitar, tão logo lhe escapa os meios de uma explicação.

“Para exprimir um medo particularmente grande, diz-se: um medo de Deus abateu-se sobre o povo. Nesse sentido, tudo o que ia além da capacidade de compreensão dos judeus e tudo aquilo de que, na altura, ignoravam as causas naturais era habitualmente atribuído a Deus.” (TTP, pg. 25. 7)
 

Todos os fenômenos na natureza que ainda hoje atribuímos a Deus, ou seja, tudo o que se encontra em grau superlativo na natureza ou algum engenho humano que fora produzido com perícia, como nas artes é atribuído a Deus. Exemplos dessas passagens estão dispostos ao longo de toda a bíblia sagrada que demonstram que o povo hebraico tinha uma mística bastante arraigada em sua cultura e que propiciou na produção dos livros sacros uma forte influência literária.  É possível perceber essa influência na tradição judaico-cristã que molda não só os ritos de cada igreja ou seita que nasce, mas principalmente de uma típica fraseologia que identifica os membros dessa ou daquela denominação pelo modo peculiar de inferir sempre que possível e nas coisas mais banais a intervenção divina. 

“É, portanto, nesse sentido que o salmista chama poderes de Deus aos milagres do Egito, já porque, numa situação de extremo perigo, abriram aos hebreus uma via de salvação absolutamente fora do que podiam esperar, já porque os deixaram extremamente maravilhados.” (TT-P, pg.25.24)

A laboriosa pesquisa exegética que tivera Espinosa foi paulatinamente abrindo um vasto campo para acirradas disputas[6] no campo teológico entre deístas e espinosistas que aderiram à filosofia crítica do filósofo judeu.  É claro que cada versículo analisado tinha como objetivo trazer átona o misticismo envolvido em cada uma das linhas e conseqüentemente o choque de uma cultura milenar mediante esclarecimentos de qualquer modo singular ao menos na história da filosofia.

Espinosa é bastante cauteloso quando fala a respeito da própria divindade.  O seu “Deus sive natura” embora diferisse do conceito de Deus na tradição judaico-cristã parece ser um Deus que ao invés de aparecer segundo a forma antropomórfica a que todos facilmente admitem, é um Deus que se comunica aos homens através de sua essência por meio de nossas mentes, o que vai diferir em muito com várias passagens ao longo das sagradas escrituras que, afirma de maneira clara que Deus fala com o homem como se estivesse materializado em forma humana. 

Ora, sua negação em relação ao Deus da tradição é inevitável, uma vez que seu Deus é imanente, enquanto o outro transcendente e dotado de todos os poderes possíveis para intervir no mundo dos homens.  A revelação é, portanto outro aspecto de sua filosofia que desmistifica o conceito de um ateu radical que em nada crê.  Se a mente de Deus é mais poderosa e perfeita sê comparada a do homem, inferimos que quanto à revelação, o Cristo que entre todos nós era em muito, o que tinha a mais desenvolvida capacidade teve a ele a palavra revelada por Deus e que fora revelada aos seus apóstolos, portanto, Cristo é o caminho da salvação. (TT-P pg.22. parágrafo 21)

Outro exemplo de falsidade que Espinosa explicita é a extensão dada aos conceitos de preconceito e superstição. É o instinto religioso que acredita no milagre e profecia e ambos dependem de uma recepção imaginária da revelação das livres escolhas de Deus.  No caso dos milagres, a necessidade das leis naturais é interrompida por uma decisão divina desconhecida (TT-P, 6). Uma vez mais os seres humanos explicam suas ignorâncias das causas que os determinam ao imaginar uma interrupção substancial na ordem natural das coisas.  Enquanto um milagre é imaginado para providenciar aos humanos com aquilo que eles percebem ser uma vantagem, um presságio é um homônimo negativo para um milagre, mas ainda expressa a mesma falsidade.  Alguns seres humanos tomam vantagem, por objetivos políticos, da inadequação da natureza do preconceito e da natureza supersticiosa desses que estão suscetíveis à crença em milagres e presságios – que é a multidão – ao declarar suas próprias habilidades para receber diretamente a revelação dos resultados imediatos das escolhas e comandos de Deus. 

Estes seres são os profetas e padres, e a profecia para Espinosa é nada mais que uma maneira inteligente de explorar disciplinando uma grande multidão através do uso de uma ágil e vívida imaginação (TT-P, 1).  Para Espinosa, “A revelação ocorreu através de imagens somente” (TT-P, 1), o que significa que todas as religiões baseadas na revelação são essencialmente falsas. A revelação é uma maneira totalmente inadequada e imprópria para a compreensão de Deus.

É por isso que Espinosa critica a noção de ficção, ou seja, seu finalismo é facilmente compreendido quando analisamos a questão de causa e efeito.  Ele observou que o homem impossibilitado de dar assentimento acerca de coisas que lhe fogem do entendimento direciona o efeito a uma causa que não requer explicação alguma.  Se Deus é o centro do qual todas as coisas surgem e para o qual convergem todos os efeitos percebidos na natureza, percebe-se desde já que a lógica onde jaz tamanha ignorância legitima como finalidade todos os efeitos em quaisquer áreas do campo humano e justifica sua causa conseqüentemente.

“Mas os filósofos, que levam o seu escrutínio um pouco mais além, percebem imediatamente que, mesmo nos eventos familiares, a energia da causa é tão ininteligível como nos eventos mais invulgares e que apreendemos apenas pela experiência a freqüente conjunção dos objetos, sem alguma vez conseguirmos compreender algo como a conexão entre eles” (EHU, 54, pg. 71)



Quanto às mudanças mais comuns, porém de algum modo familiares a natureza, David Hume está ciente que os homens ordinários não encontram dificuldades sempre que se vê diante de algo que lhes choca.  Se compenetrados conseguem até mesmo explicá-los, uma vez que adquirem por força do hábito certa capacidade de prever um efeito sem, todavia, fazer o mesmo quando se deparar com fenômenos bem mais complexos, e, portanto é comum atribuí-lo a um ser inteligente.
 
Gilmar Santos

BIBLIOGRAFIA PESQUISADA



Hume, David. Investigações sobre o entendimento humano.  Editora UNESP de 2006.  Tradução de José Oscar de Almeida Marques.

Hume, David. Diálogos sobre a religião natural. Coleção de Textos filosóficos – Edição 70. Tradução e introdução de Álvaro Nunes.

Hume, David. História natural da religião. Editora UNESP de 2004.  Tradução e apresentação de notas de Jaimir Conte

Locke, John. Ensaio acerca do entendimento humano – Editora Abril Cultural 2005.  Tradução de Anoar Aiex.

Wilson, D. Margareth.  The essential Descartes.  Meridian Publisher.  Published by the Pinguin Group



[1] Cf. EHU. Seção V pág. 72. Há, no entanto, uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, pois não se harmoniza com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem se mistura, ela própria, a nenhuma afecção ou inclinação natural; e essa é a filosofia acadêmica ou cética.
[2] Hume, David – Uma investigação sobre o entendimento humano.  Capítulo seção XII – Da filosofia cética ou acadêmica pág. 204 Edição Editora UNESP.
[3] Cf. EHU. Página 184 seção XI 3 – De uma providência particular e um estado vindouro.
[4] Wilson, Margareth D. – The essential Descartes, pag.237.  Objection II.  Meridian Publishing.  A comprehensive selection from the writings of the 17th century thinker who changed the course of western thought. – “When God is said to be unthinkable, that applies to the thought that grasps him adequately, and does not hold good of that inadequate thought which we possess and which suffices to let us know that he exists.”
[5] Cf. Espinosa, Baruch de –Tratado Teológico - Político. Editora Martins Fontes e Tradução de Diogo Pires Aurélio Pg 6 parágrafo 6 “A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição [...] os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo.
[6] Cf. Israel, J. Les Lumières radicales, op. Cit., cap. X; para uma visão mais abrangente acerca das disputas teológicas sob a influência do espinozismo