terça-feira, 17 de janeiro de 2012


Do sentimento trágico da vida 

Qual seria a definição de homem mais plausível do ponto de vista filosófico, tão logo terminamos o primeiro capítulo redigido por Unamuno? Sua indagação especula, mas, sobretudo, guia os olhos atentos do leitor e Unamuno pretende fazer uso não dos signos que intelectualmente fazemos para mencionar e referir-se aos que fazem filosofia ou filosofam, mas ao homem por traz dos títulos a eles dispensados.
Mas esse homem, antes mesmo de filosofar esta engendrado em seu meio natural, como produto do meio e frente a inúmeros outros anseios que por sua vez é meramente sombra mediante aos outros indivíduos que dividem o mesmo espaço social e requerem desse mesmo indivíduo tanto ou mais segundo aos acontecimentos e necessidades de sua organização.
O homem como produto dessas reflexões irritantes é sujeito e objeto, porque é a partir dele, todavia, que surgem todas as demais indagações acerca da vida não só de sua espécie, mas também das outras formas de vida que há abundantemente em torno dele.  Unamumo sai em defesa de sua descabida colocação uma vez que há sempre quem o possa objetar.  O que os pretensos filósofos conservadores diriam e certamente o dizem, quanto a sua audaciosa afirmação de que o homem é sujeito e objeto de toda filosofia? É justamente o que ele pretende evitar, pois não quer partir da natureza filosófica, que a seu ver é inerente ao homem, mas porque as condições externas a ele fomentam em muitas maneiras a sua já aguçada tendência a pensar suas mazelas e também sua racional inclinação a buscar um sentido para sua existência. 

Mas é o homem de carne e osso como ele mesmo cita os vários filósofos cada qual lembrado e lido em suas específicas atribuições e por vezes com pontos de vista que em muito diferem dos seus contemporâneos ou mesmo de seus predecessores, que esta reflexão recai e nos faz indagar sobre a natureza deste homem.
O filósofo não é propriamente dito o representante daquilo que é humano, mas o é certamente, o pensador par excellence que problematiza e traz átona toda a forma de pensamento que diz respeito ao ser humano, ou há algum problema que aflige a humanidade que desde os pré-socráticos ainda não fora se quer mencionado pelos mais ilustres filósofos?
E se indagarmos quanto ao que fora produzido a pouco mais de dois mil e quinhentos anos de produção filosófica, não chegaremos a julgar conscienciosamente ou não o que esses filósofos tinham por princípio? Mas não é a postura do homem pós-renascentista, pós-iluminista e, sobretudo, hoje tragados pela cientificidade um novo tipo de homem que não aceita mais os dogmas tal e qual nossos semelhantes que nos precederam aceitavam? E o que será que esses filósofos produziram? Qual foi o papel social atribuído a eles?
Contudo, esses filósofos apenas reagiram aos movimentos culturais ou políticos ou mesmo indagaram quanto ao sentido de cada coisa representada em suas mentes inquiridoras, mas se perguntarmos o que levou o homem filósofo a tudo isso foi apenas a sua razão, a resposta segundo Unamuno será negativa.  O homem filósofo neste quesito não difere dos demais, e é como os outros um produto do meio assim como o seu filosofar ou atividade filosofante não se dá sem um objetivo.  Um filósofo perscruta o íntimo do ser, o nascedouro da vida, de suas mazelas, de seus obstáculos a partir daquilo que demonstra o homem, conversa com o seu tempo, os valores vigentes de sua época, sua cultura e o que dela advém. Pensa, pesa, sopesa a cada instante e sofre, se desespera, ama, vive e morre, ou seja, mesmo ele que filosofa ou faz dessa sua atividade o primeiro princípio pelo qual vive não escapa do pensamento trágico, da tragédia que envolve a sua existência e a dos outros. 
Os filósofos não conseguiram esconder das mentes mais cuidadosas, dos leitores ávidos, dos filólogos, dos filósofos de sua ou das épocas vindouras, dos que se debruçaram sobre suas obras e demoradamente refletiram sobre o que de fato havia e sempre houve por de traz de seus sistemas, ou seja, uma preocupação com a vida, um comprometimento com o sentido, a direção, a razão de ser das coisas, e, sobretudo, a verdade última que, se não encontram respiram fundo e dizem....enfim. O filósofo não aceita as convenções, pois não descansa até descobrir os valores ou não valores por de traz de cada argumento, de cada representação.
O que constatamos por meio dessas reflexões é que não há uma racionalidade permanente no ser do homem filósofo, é ele também fuga, desespero, inquietação.  Não quer ser outro, apenas ele mesmo e quem é que quer ser outro senão ele mesmo? O ser humano é pura luta. Uma luta sem tréguas para afirmar o seu eu, suas memórias, para não deixar que morra o seu espírito, suas idéias, suas mais profundas reflexões. Se há limites ao conhecimento humano, nos já o sabemos, mas o que nos é dado conhecer não largamos facilmente, pois aqui paira sobre a humanidade deficiente do homem que mui raramente aceita reaver os próprios conceitos, reconhecer no outro uma idéia que supere em número e grau a sua própria.  Sob essa ótica, porque nos escandalizamos? Ou ao menos muita tinta já fora gasta tentando explicar o porquê os filósofos quase que sem exceção insistiram teimosamente em suas filosofias. Quando bem analisadas em todas as suas minúcias quando elas pareciam em certo aspecto ceder espaço para que um outro filósofo não só a submetesse a crítica mas contribuísse com um olhar que avançasse no caminho do conhecimento.  Por que nem sempre podemos esperar tamanho bom senso nos homens de carne e osso? Por que achamos, inocentemente, que haverá um entendimento?

Como Unamuno demonstra em sua obra o homem é todo ele vontade de vida, não quer morrer, não suporta o fato de algumas teorias lhe baterem a porta dizendo o que ocorrera depois do fim.  Pode ser que ele se agarre sim em sua fome e desejo de imortalidade, mas é muitíssimo provável que os homens de carne e osso também lutam por fazerem valer suas idéias por serem elas uma intuição como o chamou Descartes, e não mera produção intelectual de alguns senhores de grande proeminência.  É possível que haja sim, em um Spinoza uma vontade inabalável de se fazer valer sua filosofia, mas não houve nele um desespero desenfreado de universalizar a sua filosofia. Spinoza não lecionou e quando teve sua oportunidade por intermédio do próprio Leibniz ele não hesitou em recusar.  Também teve sua chance o grande Descartes que não era partidário de discussões públicas, mas não há registros de que ele tenha lecionado.  O sucesso de suas filosofias se deve ao fato de serem elas parte daquilo que era a vida desses filósofos. 
Unamuno tenta nos apresentar que as filosofias nada mais são que a trágica produção de cada homem em seu tempo.  Ora, o que foi ou representou o filósofo Espinosa segundo a ótica de Unamuno, senão um jovem pensador que lutou para provar a ele mesmo que o ser de Deus não era o vigente dado pela tradição, mas aquele que ele tanto procurou. Punido e execrado por suas idéias iluministas, Espinosa nunca se retratou – pois era sua razão que havia lhe falado e fora as suas pesquisas filosóficas assim como a sua vida espiritual que o fez enveredar por caminho tão árduo, mas por outro lado tão pleno de sentido. 

Não podemos afirmar que em Espinosa só havia razão, uma vez que, os mais variados aspectos de sua filosofia demonstram seu sentimento de angústia, sua insatisfação com os dogmas religiosos, a transgressão de princípios básicos que desarmonizam a arena política entre outros. Observamos o que Unamuno relata sobre Espinosa na própria obra do filósofo.
Unaquaeque res , quantum in se est, in suo esse perseverare conatur – cada coisa, enquanto é em si, se esforça por perseverar em seu ser.  Cada coisa é o que é em si, isto é, enquanto substância. 

Talvez o maior problema já encontrado pela maioria dos filósofos se resume em apenas uma palavra, a saber, DEUS.  Se não o dizem pode ser por capricho, pois sabemos que muitos que filosofam são ateus, mas até mesmo os ateus têm em sua constituição humana o problema para justificar o seu ateísmo de modo que sua escolha possa parecer ao menos plausível.  Os filósofos deístas por sua vez seguem em frente convictos de que o labor de sua atividade filosófica os conduza o mais próximo possível ao Θειος λογος.
 Quanto aos filósofos, deístas ou não, há ainda muitos que se ocupam com outros assuntos da filosofia, mas há porventura, na história da filosofia algum assunto que não esteja intimamente ligado há Deus? De um modo ou de outro, se trata de um esforço que leva uma longa vida para que o homem se descubra nesse mistério, mas também que faça descobertas pertinentes para que a busca continue a partir dos pontos já estabelecidos.  Para Espinosa, na visão de Unamuno, sua filosofia é uma consolação para fazer frente a sua falta de fé na tradição, assim como na teologia que herdara da tradição judaica, sem mencionar o fato de que sua filosofia atingia também as bases da igreja católica que eram contrárias as suas concepções filosóficas. 
Os filósofos que Unamuno aponta em seu livro como defensores da vontade de permanecer para sempre lembrados, que escreveram seus nomes na história da humanidade em conseqüência de suas lutas por fazerem prevalecer suas idéias, tiveram na razão o nascedouro de teorias que contribuíram de algum modo a organização das idéias que deram um novo rumo ao desenvolvimento do mundo ocidental.  Pensemos na democracia grega, que se espalhou pelos continentes, depois de florescer na Grécia, na política organizada e diretiva que fez da Grécia um império mesmo cercado por grandes nações, pensemos na própria filosofia que serviu de base para o mundo ocidental, o drama e todos os demais recursos gregos que o mundo ocidental foi herdeiro.  Ora, não eram esses recursos senão a trágica batalha do homem pela salvação, pela imortalidade da alma? 
A moral kantiana, por exemplo, é, segundo a ótica de Unamuno, e pelas entrelinhas da sua crítica da razão prática uma vontade de eternizar-se garantida pelo divino.  Não são vãs filosofias nem tão pouco pseudofilosofias, mas obras de filósofos homens e professores de filosofia, e, portanto, forte expectativa havia na esperança de explicarem o que todos de certo modo já esperam de um filósofo.  Quando surpreende abrindo o espaço para a fé, para o sentimento, para o bom senso que ele mesmo diz que os seus iguais um dia ainda invejariam a felicidade do homem simples.
“Observamos de fato que, quanto mais uma razão cultivada se consagra ao gozo da vida e da felicidade, tanto mais o homem se afasta da verdadeira satisfação: resulta daí que em muitas pessoas, sobretudo, nas mais experimentadas no uso da razão, se elas quiserem ter a sinceridade de confessá-lo, surja um certo grau de misoginia, quer dizer de ódio à razão.  E isso porque, uma vez feito o balanço de todas as vantagens por elas extraídas, e não me refiro a invenção de todas as artes do luxo vulgar, mas ainda das ciências(que elas parecem, ao final, serem também um luxo do entendimento), descobrem, contudo, que mais se sobrecarregaram de fadigas do que ganharam em felicidade e que, por isso, finalmente mais invejam do que desprezam os homens de condição inferior que estão mais próximos do puro instinto natural e não permitem a razão grande influência sobre o que fazem ou deixam de fazer.”[1]
Unamuno quer desmistificar a razão dos homens trazendo átona uma psicologia que jaz por traz das palavras dos homens que viveram por ela e falaram através dela. Ora, os filósofos como homens de carne e osso, eram também homens engajados no exercício de sua atividade de filosofar, buscando a máxima coerência, lançando luz onde já se havia dado como o fim ou auge de um mais alto esclarecimento.  Reabre o diálogo o filósofo e insiste nos pontos ainda não observados e questiona as vias por onde chegaram.  Há nesses filósofos, em suas naturezas um querer fazer, um eterno refazer que se espraia no resultado de suas obras.  Ali há vontade, querer incessante, um sentimento incontrolável de esclarecer ainda que sob sua ótica, a mais aprazível interpretação de sua época ainda que por vezes o seu ponto de partida seja o longínquo passado que permanece acessível aos homens de letra.  Está em sua consciência, em suas representações, nas memórias vividas que fazem de si, um homem que quer apenas ser ele mesmo ainda que em sua tragédia conquanto que ele siga em frente no seu próprio valor, no valor de sua própria obra.  Não são os filósofos apenas que tem essa atitude, mas também agem do mesmo modo os despossuídos da razão, os homens simples, que embora, racionais fazem pouco ou nenhum uso da mesma. Estão mais ocupados com o momento, com a mais alta forma de prazer ao seu alcance, mas também é louvável esse homem, já que somos uma abundância não é esperado que sejamos todos iguais.
E são eles de quem nos fala Kant na fundamentação da metafísica dos costumes.  Que não tenham eles valor algum se pensados enquanto indivíduos, que não sejam notáveis aos olhos da sociedade, que não sejam reconhecidos pelos seus pares, ainda assim, são eles, e são eles sempre para eles próprios.  E o que mais pode interessar?   Não se quer tornar-se outro.  Há na humanidade um orgulho de ser o que se é. E é isso o que nos ensinou Schopenhauer em sua obra regras e conduta para bem viver.
“Fora isso, o que se passa numa consciência estranha nos é perfeitamente indiferente, e, por nossa vez, tornaremos indiferentes a isso na medida em que conhecermos suficientemente a superficialidade e a futilidade dos pensamentos, os estreitos limites das noções, a pequenez dos sentimentos, a absurdidade das opiniões e o considerável número de erros que se encontra na maioria dos cérebros; na medida também em que aprendermos por experiência com que desprezo se fala, oportunamente, de cada um de nós, logo que não nos temem ou quando pensam que não o saberemos; mas, sobretudo, quando tivermos ouvido uma vez com que desprezo uma meia dúzia de imbecis falam do homem mais distinto. Compreenderemos então que atribuir elevado valor à opinião dos homens é honrá-los em demasia.” E honrá-los é fazer deles o que não são.[2]
O filósofo alemão sai em defesa do eu como princípio de tudo aquilo que pode ser de mais importante ao ser humano, ou seja, a felicidade do indivíduo é muito preciosa para andar na cabeça daqueles que nos observam.  Que permaneça e faça história o eu, já que não alcançamos aquelas opiniões dispensadas a nos. Um pouco mais complicada é a análise da imortalidade da alma sob o ponto de vista religioso e, sobretudo, católico. Há aqui uma polêmica levantada por Unamuno que sempre traz átona pontos de interrogação sobre a origem da idéia de imortalidade que segundo ele nascera da confluência dos dois pólos originários do que hoje chamamos cristianismo, ou seja, a tradição helênica e o judaísmo.  Não é muito claro o assentimento de Unamuno sobre essa temática, e poderíamos pensar com mais cautela se esse e tantos outros temas levantados por ele não poderiam ser mais bem analisados sobre uma ótica diferente como, certamente, a antropologia poderia nos dispensar.  Se a idéia de imortalidade da alma não é um princípio filosófico e se como o quer Unamuno ela é fruto de fatos que no desenrolar da história tornaram-se leituras indispensáveis porque associadas a uma tradição que data desde os pré-socráticos.  Primeiramente, antes de dar nomes a certas crenças como se fossem auto-evidentes, faz-se necessário indagarmos o que de fato é a alma.  O que temos desde então é uma crença que somos uma dualidade de corpo e alma, mas que não nos conduz a uma clareza e distinção como reclama os moldes da ciência.  Sobre tudo isso, a religião e mesmo a filosofia não só trabalham o tema, mas defendem a imortalidade da alma como algo que se possa de fato provar.  Todo o devido respeito aos credos religiosos, e como poderíamos agir diferente se a religião e mesmo os doutos do catolicismo são, sobretudo, homens de fé e a fé em si mesma não deve ser misturada com as ciências. 

Espinosa marca muito bem a necessidade e importância que a esse tema devemos, pois o ceticismo Humiano radical ou não, prefere suspender o juízo ao invés de dar nomes a fenômenos que não são passíveis de entendimento.  Espinosa é claro quanto aos dois pólos, o da fé e aquele da filosofia, que segundo ele ambos não tem contato entre si; de modo que cada uma delas terá argumentos plausíveis porém limitados a sua área específica. 
O filósofo tem a sua frente apenas o projeto de abrir espaço para que surja a verdade.  No caso de Espinosa, a verdade tem origem na razão e na natureza enquanto que a fé se assegura na submissão fervorosa e sem uma ambição teorizadora que se possa comparar as teorias que fundamentam todo o legado filosófico. Enfim, não se acha um ponto em específico onde o racionalismo e a fé possam discutir abertamente sem que haja possíveis revezes.  São dois modos inteiramente distintos de se averiguar um tema tão polêmico quanto o é o da imortalidade da alma. São duas linguagens diferentes, com conceitos extremamente opostos, mas que ao final não se pode esperar um mútuo entendimento.
A filosofia, assim como a religião embora com pontos de vista opostos e muito bem delineados de um ponto de vista espinosista, é também por sua vez coadjuvante e depois protagoniza o cenário emblemático que são os problemas que em última instância só o podem ser tratados por uma ou pela outra.  Por isso Unamuno afirma que:
“A fé, a vida e a razão se necessitam mutuamente. O anseio vital não é propriamente problema, não pode adquirir estado lógico, não pode formular-se em proposições racionalmente discutíveis, mas se coloca a nós, como a nós se coloca a fome. Um lobo que se lança sobre a sua presa para devorá-la ou sobre a loba para fecundá-la também não pode colocar-se racionalmente, e como problema lógico, seu impulso.”
Segundo a ótica de Unamuno tanto a filosofia, assim como a religião – passarão seus dias sobre a face da terra a ser uma algoz da outra.  O irracional só pode ser negado pelo racional e assim o seu inverso.  Se iniciamos essa busca por um sentido que possa valer o preço de nossa existência, que de modo pessimista analisava Arthur Schopenhauer, infelizmente não o podemos parar – o processo já iniciado e por alguma razão inquietante que não data de nosso século mas dos primórdios da filosofia ou mesmo das primeiras obras literárias que nasciam na Grécia, ainda envolvem o confronto entre fé e razão que o nosso autor, demonstra não ter interesse por um lado ou outro mas tão somente descreve-o também como parte disso, sem que ele próprio possa tomar partido, uma vez que fé e razão não se coadunam.

“Por minha parte, não quero celebrar a paz entre meu coração e minha cabeça, entre minha fé e minha razão; quero que combatam entre si.” 

As mazelas de uma existência são cada vez mais prementes, e de um ponto de vista religioso, a urgência que exige uma resposta leva o homem ao um sentimento de angústia que se não é respondido de modo que a alma descanse, o intelecto não hesitara em gritar o mais alto possível exigindo respostas ou ao menos que possa ser averiguado o mais minuciosamente possível as respostas que a religião contribuiu para tão grande façanha. Observemos o que Unamuno escreveu em sua obra prima sobre esse tema:
“Não é necessidade racional, mas angústia vital o que nos leva a crer em Deus.”
            O confronto se dá na esfera da vida e da compreensão, mas o que queremos de fato não é viver e na medida do possível compreender quando a verdade estiver a nossa espreita e nós abertos e em busca dela? Uns buscam de mais, já outros de menos – mas no fundo todos buscam a sua maneira.  A angústia já esta instalada, e nem uma nem outra dará conta ao final de convencer-nos, sem que ao final não haja milhares de olhos objetando e reprimindo o porquê caímos em caminho tão obscuro; seja ele do ponto de vista racional ou religioso.
            Recentemente fora publicado um livro sob o título “Os conflitos de fé dos filósofos – anjos que caíram ? Sob o ponto de vista religioso, mas sobretudo calcado nas sagradas escrituras, não há um só filósofo que tenha não tenha tido essa angústia na alma, por ter tentado levar as últimas conseqüências os mais finos detalhes de sua filosofia tendo como objeto o maior dos problemas que provoca não pouca discussão, mas uma verdadeira polêmica que gira em torno de “Deus”. O Pr. Evangélico de uma determinada denominação trata os filósofos, entre eles os mais proeminentes, como se fossem cegos ou anões da fé enquanto gigantes de um saber muito próximo do que imaginamos ser dispensado a cada filho obediente que atende ao pedido de seu pai. Ora, o autor não faz um exame de consciência no que se refere aos postulados defendidos pelos dogmas da fé, e portanto, sinto que seu convite é para um eterno apaziguar de uma alma que já esta envolvida na angústia, nessa busca por um certo “que” de imortalidade para que eu descanse em paz quando minha hora chegar.  E ainda que as respostas não cheguem, por via racional – os filósofos terminarão os seus dias a procura.  O mais importante é não perder-se.  Se não podemos conciliar razão e fé, isso é de todo compreensível.  E pode a razão minar a minha fé que vacila no escuro?  A outra pergunta é: Uma fé que vacila facilmente tem lá seu merecimento de assim ser chamada quando uma mera reflexão sucumbe o que já vinha sendo cultivado por gerações e gerações? O sentimento trágico da vida envolve-nos, persegue-nos mas, sobretudo, prepara-nos para o momento da verdade.  Os filósofos podem sim cometer erros – são os seus erros, ao menos diante de nossos olhos ou como os concebemos, mas estão eles todavia errados de todo? Não são as dúvidas que os perseguem ou os conflitos que os arrastam frutos de uma incapacidade teológico-religioso? Por que são impenetráveis aos olhos de muitos os dogmas da fé? São teimosos e orgulhosos os senhores filósofos? Ou, apenas famintos de um conhecer que no mínimo nos encanta devido ao seu mistério?


Gilmar Silva dos Santos


[1] Kant, Immanuel – Fundamentação da metafísica dos costumes – Texto Integral Martin Claret pag. 23 § 2
[2] Schopenhauer, Arthur–Regras e conduta para bem viver, pag. 56 Cap. IV – Do que representamos. Casa Editora Vecchi limitada

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