terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Das investigações sobre o entendimento humano
E a existência de Deus através da razão



Ao longo das investigações sobre o entendimento encontramos um sem número de preocupações do filósofo acerca do modo como o ser humano apreende o mundo no qual ele está inserido.  Não nos surpreende, no entanto, o fato de iniciar sua obra fazendo uma distinção entre um filósofo que do assentimento da importância da moral constrói todo o seu sistema tomando do comportamento humano, exemplos dos mais variados e não hesita em selecioná-los para trazê-los à luz do entendimento humano, tarefa essa que, embora árdua, traz a esses filósofos um sentimento de alívio e satisfação por terem, não somente encontrado quem os ouvisse, mas, sobretudo quem os compreendesse. 

Por outro lado há quem difere desse tipo de engajamento filosófico, pois, os filósofos empenhados nas ciências da natureza humana priorizam o entendimento em detrimento do cultivo de nossos costumes.  O objetivo desses pensadores é, todavia, o alcance dos princípios originais que limitam o saber humano em qualquer ciência.  Esses, todavia, sentem-se recompensados se seus esforços em busca da verdade, os conduzir ao encontro de verdades que possam talvez não contribuir de imediato para o mundo no qual vivem, mas que certamente contribuirá para o futuro das pesquisas similares empenhadas nesta mesma direção.

Esse último espécime de filósofo é sem dúvida um inquiridor nato, pois não se cansa de tentar lançar luz aos seus postulados ainda que todo tipo de obstáculos se levantem contra ele e sua filosofia.  Esse pensador implacável não desviará de sua meta, enquanto outros param no meio do caminho e cedem a preconceitos religiosos, ele continua em busca de mais evidências. A perspectiva humiana é que, tal pensador deve, sobretudo, investigar incansavelmente a natureza do entendimento humano de modo a poder demonstrar que aquilo que é abstruso, ou seja, incompreensível e ainda remoto não são passíveis de assimilação pelo entendimento humano, pois seus poderes assim como suas capacidades são inferiores para tal aprofundamento.  Eis aqui o filósofo que toma para si o pesado fardo de trazer átona novas perspectivas, ou desmistificar um ou outro obstáculo para contribuir com o progresso do reino dos homens, e se tornar ele próprio um benfeitor da humanidade.



“The sweetest and most inoffensive path of life leads through the avenues of science and learning; and whoever can either remove any obstructions in this way, or open up any new prospect, ought so far to be esteemed a benefactor to mankind”. (IHU-section I part 10)



Hume considera, no entanto que a filosofia abstrusa é, todavia, vulnerável mediante a possibilidade de cair em erro, pois o objeto da qual ela trata é muitas vezes incerto sem mencionar o fato de ser uma pesquisa penosa em um campo muito vasto, repleto de contradições.  Daí, ele enfatizar a metafísica como modelo supremo dessa espécie de filosofia, e não o fez por mero acaso, mas por ter ela todas as características que coadunam com as preocupações do filósofo.

A distinção feita entre pensamentos ou idéias de um lado e do outro as impressões demonstram, segundo a perspectiva de Hume que as primeiras sendo menos fortes, mas vivazes e diretamente ligadas a nossa consciência, é, no entanto livre não só da natureza assim como também o é da realidade, uma vez que livre está para pensar o que quer que seja sem que a resultante de seu pensamento tenha necessariamente alguma conexão com a realidade do mundo das coisas. Por outro lado, as impressões vão diferir das idéias, uma vez que a impressão é aquilo que de imediato nos afeta agora através de nossos sentimentos de ódio, nossa visão ou o que é exteriormente captado por ela, ou seja, aquilo que vemos, assim como o exercício de nossas vontades.  O que parece ser bastante intrigante é o fato de Hume inferir uma conexão direta entre uma idéia que temos sobre algo e uma impressão semelhante.
 

“We may prosecute this inquiry to what length we please; where we shall always find, that every idea which we examine is copied from a similar impression.” (IHU section II 6)
 

Sendo assim, claro está que no tocante a religião fundamentada na idéia que temos de Deus segundo sua declaração, a religação que considerável parte da humanidade sente em relação a um ser supremo é não só pueril, mas destituída de todo e qualquer sentido.  Ora, sua afirmação polêmica remete-nos a idéia de que Deus sumamente bom, tal e qual nos o concebemos é fruto da capacidade que têm nossas idéias que são ilimitadas, de inferir a existência de seres com tais e tais características que de modo algum podemos provar, ou seja, nosso cérebro é dotado da capacidade de produzir idéias ilimitadas, mas prová-las foge-lhe inteiramente de suas possibilidades.

Nos diálogos sobre a religião natural, Hume inicia com os personagens criado por ele uma discussão para ampliar as perspectivas da religião natural acerca de um Deus “sumo bom”, assim como as verdades difundidas pela religião revelada.  Quanto a essa última, Hume não hesita em sustentar que, as religiões sem nenhuma exceção afirmam verdades religiosas, mas que, uma vez analisadas sob a luz da ciência, tais afirmações entra em choque com uma diversidade de pontos de vista acerca desse problema.

            Observamos que nos diálogos, o personagem Cleantes toma uma posição a favor da existência de Deus a partir do “argumento do desígnio a posteriori” que foi extremamente difundido e discutido por membros da comunidade filosófica, sem, no entanto deixar de ganhar adeptos entre cientistas de proeminência no século XVIII.  Este argumento está baseado em duas vertentes que asseguram fortes implicações para a discussão, ou seja, uma probabilidade nomológica que significa as normas ou leis no universo que exprimem o seu mais perfeito funcionamento.  Por outro lado, há outra versão. A teleológica que significa os fins ou propósitos para o qual tudo existe, portanto, há que se ter uma intenção ou vontade por traz dos mistérios da natureza.

            O argumento do desígnio sob o ponto de vista cético é meramente uma falsa analogia. Afirmar que o ajustamento do universo, ou seja, o efeito que percebemos tal e qual e de acordo com o significado que damos a ele, ora teleológico e em outras circunstâncias ou sob outro ponto de vista das leis que há na natureza não é necessariamente um argumento que simplesmente podemos confiar.  É possível partir dos efeitos para a causa?  Podemos inferir alguma coisa, acertadamente, acerca da criação do mundo quando jamais estivemos lá para dar testemunho?  Não é, pois claro e evidente que aquilo que percebemos no mundo natural, já nos causa espanto o bastante e ainda assim, não chegamos ao ser das coisas? Não encontramos na tradição filosófica, e de modo revolucionário, que apreendemos os fenômenos, mas não o seu ser-aí?  Não poderíamos inferir, do mesmo modo que afirmamos tão acertadamente, que a ordem e desígnio que há aqui pode não haver alhures? Ora, por que razão, afirmamos que a origem do universo tem sua causa no divino? A posição de Hume quanto ao ceticismo[1] é cautelosa, mas isto se dá porque o cético difere em muito de um filósofo teísta que utiliza de um discurso onde seus postulados são colocados de forma assertória, enquanto o cético suspende o juízo para não correr o risco de cair na contradição, mas também porque visam através de tal atitude um dia alcançar a verdade[2] de algum outro modo sem ter que se precipitar para dar uma resposta.

            Mas estes filósofos não param aí.  Há neles uma peculiar atitude em relação aos nossos próprios sentidos.  Daí observa-se que a revolução das ciências iniciada no século XVII, fomentou ainda mais essa busca de entendimento plausível da natureza que começou a colocar em questão as explicações finalistas que até então uma tradição de filósofos, sobretudo os racionalistas, haviam dado às questões de requinte como a alma, o mundo e Deus.  Avanços no ramo da biologia, da química e também na astronomia contribuíram para o desenvolvimento do argumento do desígnio.  Mas havia também o argumento cosmológico amplamente discutido por pensadores que procuravam dalgum modo elucidar ou contribuir para possíveis avanços nesta área.

            A teologia natural, imbuída de seu dogmatismo e fortemente estabelecida por suas verdades de razão vai se unir, em busca de um “bem” que oxalá seja comum a todos, com as ciências naturais que contrariamente tem seus princípios fundamentados em verdades de fato e caminha otimista na esperança de explicar os fenômenos e o que há por traz deles.  De que forma a religião poderia estar ligada a estas duas vertentes?

            O argumento do desígnio assim como o cosmológico é baseado em uma concepção a posteriori, uma vez que tanto um quanto o outro estão baseados no mundo físico, mas entre estas duas concepções há algumas diferenças.  O argumento cosmológico irá se fundamentar na existência de Deus através da existência do mundo, ou seja, se todas as coisas têm uma causa faz-se necessário que aquele que é o princípio ou ato puro viabilize a existência de outros seres.

            Já no argumento do desígnio, há, sobretudo, uma vontade ou intenção que mediou todo o vir a ser das coisas. Ora, essa acessibilidade que está para o homem e que o capacita a fazer inferências acerca do mundo está também para a vontade que exprime sua razão de ser.  O filósofo inglês John Locke, que não era cético escreveu em seus ensaios algo semelhante aos céticos acerca da suspensão do juízo, mas bem analisado verificamos que a posição de Locke está mais para o bom senso e honestidade, visto que algumas coisas não são passíveis de conhecimento e, portanto, a insistência de sua busca terá tudo para ser infrutífera.

            Se, portanto, considerarmos que o “profundo” estabeleceu leis que regem a natureza, de modo que não conseguimos demonstrar nenhuma das idéias naturais, mas somente assinalá-las, ou seja, indicar, destacar que seu mistério jaz em Deus. Digo a coerência, a continuidade (das outras partes da matéria), a produção de sensação em nós através de suas cores, sons e etc. Locke aqui conclui que as regras originais, assim como os impulsos do movimento bem como estes acima já citados em nada contribuem para uma possível conexão natural das idéias, portanto, assinalamo-las.

Se não há uma ciência perfeita em relação aos corpos naturais que possam demonstrar sua ação, e como elas reciprocamente diferem uma da outra (ao menos, no tocante ao efeito, uma vez que sua causa não nos é possível conhecer), Cabe-nos somente aquele conhecimento que advém da experiência. Locke concluirá dizendo que estamos longe de possuí-la, devendo, portanto, interromper sua investigação.  Atitude como se vê, não de um cético, mas de um filósofo que soube reconhecer ao menos suas limitações ao tentar dar respostas às indagações que simplesmente não dispunham de nenhuma conexão com a realidade, o que resultaria em mera especulação.

            Quanto à existência de Deus, Hume afirma não haver nenhum fundamento que dessa idéia podemos inferir, no entanto, considera insuficientes os argumentos que tratam os objetos independentes de nossa experiência como postulados da existência de Deus, ou que Deus assegura a existência dos mesmos ainda que escapem a nossa percepção e em nada possam contribuir ao nosso conhecimento acerca das coisas. Mas por que devo eu acreditar na existência de Deus? Hume aponta para uma resposta a essa pergunta na história natural da religião se baseando em duas corrupções da religião. A superstição, que normalmente está associada com a idolatria e que tem sua fonte na fraqueza, medo, melancolia e ignorância que é manifestada em cerimônias, observações e sacrifícios diretamente ao agente desconhecido.[3]

“Os dogmas especulativos da religião, que dão presentemente ensejo a tão acirradas disputas, não poderiam ser concebidos ou aceitos nos primeiros tempos do mundo, quanto à humanidade, sendo completamente iletrada, formava da religião uma idéia mais apropriada à sua fraca compreensão, e compunha seus dogmas sagrados mais a partir das lendas que faziam parte das crenças tradicionais do que a partir de argumentos e discussões”. (EHU seção XI 3)



            Quanto ao entusiasmo, que normalmente está associado aos novos convertidos e principalmente aqueles devotos de seitas protestantes representam um tipo de religião corrompida pela emoção fanática ou mania religiosa.  São comuns os transes, momentos que a divina inspiração, como eles mesmos dizem, os visita através do espírito santo que é objeto de devoção.  Hume nesta passagem acima citada de sua mais divulgada obra refere-se às pessoas simples como um todo, ora não devemos imaginar que este deus dos filósofos mais refinado e cheio de atributos, seja o mesmo adorado por aquelas pessoas iletradas e submissas aos poderes da natureza.  É claro que o povo humilde, assim como os filósofos criam em algo, porém esta relação com o divino se dá em diferentes matizes. 

            Não há dúvida quanto à erudição de Hume quando o assunto é metafísica e religião.  O filósofo escocês (da tradição inglesa) era bastante familiarizado das tradições racionalistas de sua época, assim como conhecera muito bem os gregos.  A razão é a causa das grandes discussões em torno desse tema que marcou época.  É como se a razão visse as coisas, sem poder de fato enxergá-las nem tão pouco explicá-las tais como são, não há, pois contornos, nem volume nem cor, mas apenas uma verdade que ao menos é persistente e inquiridora na tentativa de descobrir esse mistério teológico que ainda assombra e inquieta as mais brilhantes mentes.  Vejamos em Descartes como ele contribuirá para a compreensão desse fenômeno:



“Como seria possível que eu pudesse conhecer que duvido e que desejo, isto é, que me falta algo e que não sou inteiramente perfeito, se não tivesse em mim nenhuma idéia de um ser mais perfeito que eu, em comparação ao qual eu conheceria as carências de minha natureza?” (Descartes, Meditações)



            Nas objeções II, “concerning the ideas of God and an infinite number” Descartes aborda o assunto da imperfeição do indivíduo na tentativa de buscar acertadamente a existência de um Ser sumamente bom: “Enfim, quando Deus é dito inconcebível, por isso se entende uma plena e inteira concepção, que compreende e abrange perfeitamente tudo quanto há nele, e não essa concepção medíocre e imperfeita que há, em nós, a qual é, no entanto, basta para conhecer que Ele existe.”[4]  Foi em suas reflexões que Descartes encontrou o caminho seguro para estabelecer um Ser mais perfeito, partindo do primeiro princípio da filosofia que buscava - e que por sua vez, segundo ele, estava seguro até mesmo do ácido cético que destrói toda e qualquer proposição – Cogito Ergo Sum, é pois, a proposição que faz Descartes inferir que, por não poder assegurar a si mesmo que ele está a dizer a verdade recolhe sua proposição e vê adiante a possibilidade de haver um Ser mais perfeito que ele próprio.

Uma vez consciente de que em outras circunstâncias ele fora enganado Descartes decide caminhar por outras vias que diferentemente das outras possam assegurar-lhe um firme conhecimento do mundo, e, portanto, passa a crer somente nas idéias que estavam baseadas na razão em detrimento das idéias sensíveis e infrutíferas, que ele já havia experimentado.  Nesse sentido Hume nega veementemente a posição cartesiana, pois a razão não é suficientemente o bastante para conhecer o mundo, este não pode ser conhecido.

         “Admite-se que o máximo esforço da razão humana é reduzir os princípios, geradores dos fenômenos naturais, a uma maior simplicidade, e resolver os muitos efeitos particulares numas quantas causas gerais; mas relativamente às causas dessas causas gerais, em vão tentaremos a sua descoberta, nem alguma vez conseguiremos satisfazer-nos mediante qualquer explicação particular delas.” (EHU, 26, p.35)


Na grande massa como o próprio Hume descreve na nota anterior (seção XI, 3 das investigações), sua causa esta relacionada majoritariamente com os revezes que estas pessoas esperam de um deus antropomórfico e terrível.  Tal atitude esta intimamente ligada a uma cultura mais antiga que antecedeu o cristianismo e que só foi sucumbindo paulatinamente.  O próprio Paulo quando prega no areópago utiliza-se de um discurso que se justifica no próprio costume do povo e na cultura local.  O apóstolo para não ofender o sentimento religioso local tomou a palavra e não hesitou em fazer menção “ao deus desconhecido” que os gregos cultuavam, assegurando a este, assim como aos outros deuses uma estátua que os reverenciava. 


“As primeiras idéias religiosas não nasceram da contemplação das obras da natureza, mas sim da preocupação com os acontecimentos da vida e das esperanças e dos medos[5] que incessantemente percorrem a mente humana”


Como não há experiência humana na contemplação desses deuses, mas apenas uma aceitação obsequiosa de uma sociedade que têm como norma adorar certos deuses.  Imaginamos, pois, que viver em uma sociedade onde devemos crer nos deuses do Estado seja a regra e que por uma desventura, caso alguém tente introduzir novos deuses ou mesmo não lhe prestar as devidas homenagens, terá que se submeter aos revezes por seu ato individual.  O próprio Sócrates fora vitima de um sentimento religioso pré-estabelecido e devidamente reconhecido pelo Estado.  Em uma de suas acusações constava a não-reverência aos deuses reconhecidos pelos membros da Pólis. Bem, vimos que inferir o que quer que seja a uma divindade é recorrer a um argumento falacioso.  São sentimentos e devaneios, todos eles bastante peculiar a natureza do homem somado a submissão que este deve conferir a vida comunitária, os responsáveis por esta aceitação da figura de um deus como legislador do universo e mantenedor de uma finalidade para todas as obras da natureza.

Se há no homem de ciência uma tendência incontrolável para fazer uso somente dos dados da razão em detrimento daqueles sensíveis como encontramos em Descartes, há, portanto, também um impasse quanto à apreensão do conhecimento.  Ora, não recebemos do mundo impressões isoladas, vislumbre que ora apreendemos de um modo, ora de outro e o mundo exterior a nós, ainda que não aceitemos, continua lá a nos afetar e nosso espírito permanece passível? Bem, o que pensamos, sentimos e fazemos está sempre relacionado de algum modo com uma ordem e uma relação com o mundo, que com suas próprias leis nos predispõe através de nossos sentidos, o que Hume pensava não serem suficientes ou de nossa razão como queria Descartes. 

O argumento do desígnio força-nos a uma melhor compreensão do conceito de causa e efeito, principalmente, quando Hume é o protagonista dessa posição, no entanto, há outro pensador que também marcou profundamente o século XVII em torno dessa questão que envolve o argumento, ou precisamente, uma das partes em que se divide a compreensão do argumento.  Em Espinosa encontramos ao longo de sua obra ataques fulminantes quanto ao significado do termo “finalismo” que ele diz afetar, não somente ao mais simples de todos os homens, mas também aos filósofos. Para Espinosa, o finalismo está intimamente ligado a ignorância e na incapacidade do homem de lidar com os mistérios da natureza sem ter que nomear um Ser que seja o legislador de suas leis. 

A crítica de Espinosa pautada nos textos da bíblia sagrada demonstra um trabalho exegético singular na história da filosofia.  Para Espinosa todo e qualquer fenômeno que foge a capacidade do homem de uma possível explicação torna-se logo objeto de uma intervenção divina.  É a vontade de um deus o centro de onde emanam todos os acontecimentos perceptíveis na natureza, e é assim que o homem ignorante e supersticioso infere sem hesitar, tão logo lhe escapa os meios de uma explicação.

“Para exprimir um medo particularmente grande, diz-se: um medo de Deus abateu-se sobre o povo. Nesse sentido, tudo o que ia além da capacidade de compreensão dos judeus e tudo aquilo de que, na altura, ignoravam as causas naturais era habitualmente atribuído a Deus.” (TTP, pg. 25. 7)
 

Todos os fenômenos na natureza que ainda hoje atribuímos a Deus, ou seja, tudo o que se encontra em grau superlativo na natureza ou algum engenho humano que fora produzido com perícia, como nas artes é atribuído a Deus. Exemplos dessas passagens estão dispostos ao longo de toda a bíblia sagrada que demonstram que o povo hebraico tinha uma mística bastante arraigada em sua cultura e que propiciou na produção dos livros sacros uma forte influência literária.  É possível perceber essa influência na tradição judaico-cristã que molda não só os ritos de cada igreja ou seita que nasce, mas principalmente de uma típica fraseologia que identifica os membros dessa ou daquela denominação pelo modo peculiar de inferir sempre que possível e nas coisas mais banais a intervenção divina. 

“É, portanto, nesse sentido que o salmista chama poderes de Deus aos milagres do Egito, já porque, numa situação de extremo perigo, abriram aos hebreus uma via de salvação absolutamente fora do que podiam esperar, já porque os deixaram extremamente maravilhados.” (TT-P, pg.25.24)

A laboriosa pesquisa exegética que tivera Espinosa foi paulatinamente abrindo um vasto campo para acirradas disputas[6] no campo teológico entre deístas e espinosistas que aderiram à filosofia crítica do filósofo judeu.  É claro que cada versículo analisado tinha como objetivo trazer átona o misticismo envolvido em cada uma das linhas e conseqüentemente o choque de uma cultura milenar mediante esclarecimentos de qualquer modo singular ao menos na história da filosofia.

Espinosa é bastante cauteloso quando fala a respeito da própria divindade.  O seu “Deus sive natura” embora diferisse do conceito de Deus na tradição judaico-cristã parece ser um Deus que ao invés de aparecer segundo a forma antropomórfica a que todos facilmente admitem, é um Deus que se comunica aos homens através de sua essência por meio de nossas mentes, o que vai diferir em muito com várias passagens ao longo das sagradas escrituras que, afirma de maneira clara que Deus fala com o homem como se estivesse materializado em forma humana. 

Ora, sua negação em relação ao Deus da tradição é inevitável, uma vez que seu Deus é imanente, enquanto o outro transcendente e dotado de todos os poderes possíveis para intervir no mundo dos homens.  A revelação é, portanto outro aspecto de sua filosofia que desmistifica o conceito de um ateu radical que em nada crê.  Se a mente de Deus é mais poderosa e perfeita sê comparada a do homem, inferimos que quanto à revelação, o Cristo que entre todos nós era em muito, o que tinha a mais desenvolvida capacidade teve a ele a palavra revelada por Deus e que fora revelada aos seus apóstolos, portanto, Cristo é o caminho da salvação. (TT-P pg.22. parágrafo 21)

Outro exemplo de falsidade que Espinosa explicita é a extensão dada aos conceitos de preconceito e superstição. É o instinto religioso que acredita no milagre e profecia e ambos dependem de uma recepção imaginária da revelação das livres escolhas de Deus.  No caso dos milagres, a necessidade das leis naturais é interrompida por uma decisão divina desconhecida (TT-P, 6). Uma vez mais os seres humanos explicam suas ignorâncias das causas que os determinam ao imaginar uma interrupção substancial na ordem natural das coisas.  Enquanto um milagre é imaginado para providenciar aos humanos com aquilo que eles percebem ser uma vantagem, um presságio é um homônimo negativo para um milagre, mas ainda expressa a mesma falsidade.  Alguns seres humanos tomam vantagem, por objetivos políticos, da inadequação da natureza do preconceito e da natureza supersticiosa desses que estão suscetíveis à crença em milagres e presságios – que é a multidão – ao declarar suas próprias habilidades para receber diretamente a revelação dos resultados imediatos das escolhas e comandos de Deus. 

Estes seres são os profetas e padres, e a profecia para Espinosa é nada mais que uma maneira inteligente de explorar disciplinando uma grande multidão através do uso de uma ágil e vívida imaginação (TT-P, 1).  Para Espinosa, “A revelação ocorreu através de imagens somente” (TT-P, 1), o que significa que todas as religiões baseadas na revelação são essencialmente falsas. A revelação é uma maneira totalmente inadequada e imprópria para a compreensão de Deus.

É por isso que Espinosa critica a noção de ficção, ou seja, seu finalismo é facilmente compreendido quando analisamos a questão de causa e efeito.  Ele observou que o homem impossibilitado de dar assentimento acerca de coisas que lhe fogem do entendimento direciona o efeito a uma causa que não requer explicação alguma.  Se Deus é o centro do qual todas as coisas surgem e para o qual convergem todos os efeitos percebidos na natureza, percebe-se desde já que a lógica onde jaz tamanha ignorância legitima como finalidade todos os efeitos em quaisquer áreas do campo humano e justifica sua causa conseqüentemente.

“Mas os filósofos, que levam o seu escrutínio um pouco mais além, percebem imediatamente que, mesmo nos eventos familiares, a energia da causa é tão ininteligível como nos eventos mais invulgares e que apreendemos apenas pela experiência a freqüente conjunção dos objetos, sem alguma vez conseguirmos compreender algo como a conexão entre eles” (EHU, 54, pg. 71)



Quanto às mudanças mais comuns, porém de algum modo familiares a natureza, David Hume está ciente que os homens ordinários não encontram dificuldades sempre que se vê diante de algo que lhes choca.  Se compenetrados conseguem até mesmo explicá-los, uma vez que adquirem por força do hábito certa capacidade de prever um efeito sem, todavia, fazer o mesmo quando se deparar com fenômenos bem mais complexos, e, portanto é comum atribuí-lo a um ser inteligente.
 
Gilmar Santos

BIBLIOGRAFIA PESQUISADA



Hume, David. Investigações sobre o entendimento humano.  Editora UNESP de 2006.  Tradução de José Oscar de Almeida Marques.

Hume, David. Diálogos sobre a religião natural. Coleção de Textos filosóficos – Edição 70. Tradução e introdução de Álvaro Nunes.

Hume, David. História natural da religião. Editora UNESP de 2004.  Tradução e apresentação de notas de Jaimir Conte

Locke, John. Ensaio acerca do entendimento humano – Editora Abril Cultural 2005.  Tradução de Anoar Aiex.

Wilson, D. Margareth.  The essential Descartes.  Meridian Publisher.  Published by the Pinguin Group



[1] Cf. EHU. Seção V pág. 72. Há, no entanto, uma espécie de filosofia que parece pouco sujeita a esse inconveniente, pois não se harmoniza com nenhuma paixão desordenada da mente humana, nem se mistura, ela própria, a nenhuma afecção ou inclinação natural; e essa é a filosofia acadêmica ou cética.
[2] Hume, David – Uma investigação sobre o entendimento humano.  Capítulo seção XII – Da filosofia cética ou acadêmica pág. 204 Edição Editora UNESP.
[3] Cf. EHU. Página 184 seção XI 3 – De uma providência particular e um estado vindouro.
[4] Wilson, Margareth D. – The essential Descartes, pag.237.  Objection II.  Meridian Publishing.  A comprehensive selection from the writings of the 17th century thinker who changed the course of western thought. – “When God is said to be unthinkable, that applies to the thought that grasps him adequately, and does not hold good of that inadequate thought which we possess and which suffices to let us know that he exists.”
[5] Cf. Espinosa, Baruch de –Tratado Teológico - Político. Editora Martins Fontes e Tradução de Diogo Pires Aurélio Pg 6 parágrafo 6 “A que ponto o medo ensandece os homens! O medo é a causa que origina, conserva e alimenta a superstição [...] os homens só se deixam dominar pela superstição enquanto têm medo.
[6] Cf. Israel, J. Les Lumières radicales, op. Cit., cap. X; para uma visão mais abrangente acerca das disputas teológicas sob a influência do espinozismo

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