quarta-feira, 18 de janeiro de 2012


A fundação do ateísmo Nietzschiano no anti-cristo

DA MORAL E DAS VERDADES



A priori diríamos que o livro de Nietzsche “Der Antichrist”, antes de lermos ao menos sua introdução ou as primeiras linhas do primeiro capítulo, se trataria de um ataque a pessoa de Cristo, mas ao iniciarmos a leitura é possível chegar a uma compreensão bem mais complexa do conteúdo que uma mera concepção contrária aos ensinamentos do mestre dos evangelhos.

A crítica de Nietzsche é, sobretudo dirigida ao homem moderno, aos seus contemporâneos e como suas vidas eram organizadas e vividas segundo uma moral cristã que aos olhos do filósofo eram decadentes.  O que Nietzsche designa como decadente são os valores apreendidos dos ensinamentos do cristianismo, que fazem do homem menor do que aquilo que ele pode representar, ou seja, sua humanidade, suas vontades, seu próprio desejo de superar-se e tornar-se uma figura humana e quiçá além de sua própria humanidade.  Para esclarecer os principais pontos de sua visão crítica sobre as bases do cristianismo faz-se necessário um retorno ao início de como o mundo ocidental foi ao longo dos tempos tomando sua forma.  Primeiramente, a figura de Cristo não é a mais polêmica e nem tão pouco a que será mais combatida ao longo do seu “anticristo”.  Até mesmo porque a intenção do filósofo não é combater o Cristo propriamente dito mas o que a tradição utilizou e distorceu de seus ensinamentos.  É importante considerar a etimologia da palavra αντι oriunda do Grego, e que traz em sua significação “aquilo que substitui” e não como fora adaptada para os demais idiomas com o peso de ser contrário a algo.  E se há alguma crítica ou pensamentos contrários as intituições já estabelecidas assim como a liturgia por trás das mesmas, elas certamente terão um endereço mas não necessariamente e de modo contundente a figura do Cristo, a quem, o filósofo por vezes refere-se a ele com certo cuidado, como nos é possível perceber em algumas citações ao longo do livro.  O título foi de algum modo bastante sugestivo ou bem elaborado se consideramos o que de fato o filósofo tentava combater.  Ora, não se trata do Cristo como já foi descrito acima, mas de todos os valores metafísicos que criaram a partir de seus ensinamentos, mas, sobretudo, dos ensinamentos de Platão que foi o precursor do dualismo entre mundo inteligível e mundo sensível. 

“Em sua obra “Para além do bem e do mal” Nietzsche descreve o Cristianismo como um platonismo para o povo. De algum modo podemos compreender o porquê o título de seu livro surge como um significado bem mais abrangente do que o próprio título nos quer informar, pois a dualidade a qual o filósofo se refere não para aí, mas segue em diante com outras dualidades que estão intimamente ligadas a natureza da metafísica, ou seja, céu-inferno, corpo-alma, salvação-condenação e etc. Nietzsche é considerado por muitos um filósofo da cultura, ou alguém que idealizou um mundo sob uma nova ótica, sob novos valores, valores esses que ele dedicou a maioria de seus escritos.  Seus escritos tem incomodado a muitos que se apegaram as regras já dadas, simplesmente aceitaram-nas em troca de respostas que acalentassem suas almas ávidas por uma quietude.  Mas para Nietzsche essas respostas permanecerão nos incomodando, simplesmente porque não é possível encontrá-las.  O que há disponível para todos nada mais é que “wille zur macht” ou vontade de potência, e essa sim nos impele a ser, a criar, a destruir, a transformar.  Ela é individual mas nos aparece como uma síntese universal, pois é ela que interpreta o que chamamos por realidade.  É desse ponto de vista que Nietzsche curiosamente vai se opor aos fatos, ou seja, se eles existem tal como se apresentam a nós. Segundo o filósofo, são meramente interpretações forjadas das forças, que dalgum modo expressas em vontade de potência suscita uma realidade, mas ela é enganosa.

O cristianismo é, portanto uma interpretação entre muitas, e, portanto, não pode ser a detentora de toda a verdade na terra.  Se tudo nos fosse absolutamente aparente, talvez não necessitássemos de tantas instituições religiosas cada qual com um caminho muito próprio para se chegar à salvação.  Isso nos demonstra que o que prevalece são as interpretações, ou as forças individuais interpretadas segundo uma vontade de fazer com que seus pressupostos se instalem no grande jogo das interpretações.  É verdade que elas surgem como qualquer outra, mas se reforçam ao passo em que mais adeptos a elas se filiam.  Isso significa que a verdade está para mais além daquilo que podemos contemplar, mas nem por isso, procuraremos pelas respostas de nossas muitas indagações em um mundo em que dele nada sabemos. 

E sobre isso o filósofo nos aponta o caminho em sua “Zur genealogie der Moral”: “Quanto maior for os olhares, de olhares distintos que saibamos empregar para ver uma mesma coisa, tanto mais complexo será nosso conceito sobre ela, tanto mais completa será nossa objetividade”, ou seja, entre escolher uma única perspectiva a outras tantas que se coadunam com o objetivo a que nos empenhamos – “a compreensão” o que nos será mais adequado? Isso dependerá de cada um.  É por esta razão que Nietzsche aponta que tipo de leitor se dará o trabalho de se aplicar na interpretação de seus textos.  Ele os chamará de hiperbóreos, um tipo único de ser que está muito além dos tipos ordinários.  Os hiperbóreos não aceitarão os fatos tal como eles nos aparecem, não descansará até que uma visão do todo seja formada, ainda que uma verdade não possa ser contemplada, mas insistirão na busca do entendimento. 

Mas isso nos dá uma forte sensação de estarmos caminhando em círculos porque as forças das quais Nietzsche faz tanta questão de mencionar, ele próprio e cada um de nós somos uma fonte de nascimento e destruição, ou seja, como poderemos lidar com essa sensação de nossa própria limitação? As forças são finitas porque são humanas, mas não podemos dizer o mesmo do movimento que se dá a partir das mesmas. Para manter o homem no caminho certo, ou seja, despertar o homem para uma postura de independência e de ampla visão em busca de uma compreensão que o eleve à um tipo superior de ser humano,  Nietzsche aponta para o “Ubermensch” ou o além-do-homem que estará mais preparado por suas próprias características a conviver com sua capacidade de superar-se no enfrentamento com o mundo disposto em enigmas, fragmentado em valores dos mais complexos.  Nietzsche não compactua com os valores do Cristianismo e há quem diga que sua filosofia as marteladas, no golpe inflexível de suas asserções seja também um deus em boa medida. 

Se os cristãos criaram um “Deus” também pode-se criar outros valores – como o próprio filósofo criou o seu “willen zur macht” e também o seu “ubermensch”, ou seja, é o homem mais uma vez criando, interpretando e criando valores. Mas o filósofo deixa bem claro que sua interpretação não é única.  A filosofia, como o próprio Nietzsche fazia questão de reiterar, é algo para os fortes, já os fracos usariam todo e qualquer meio para se apoiar em algo.  Tentar interpretar algo antes de aderir a ele é para muitos um árduo trabalho que pode levar anos e ainda assim mantê-lo ocupado por toda a sua vida.  É claro que a maioria dos homens não se dará o trabalho de investigar algo que para ele será tratado como algo comum ainda que lhes tire o sono, mas mesmo assim, não os espanta, o que com o filósofo já não ocorreria.  O filósofo investigará e denunciará através de suas interpretações multi-direcionais quais são os valores e a que interpretações se apóia o mais comum dos homens, e é isso o que faz Nietzsche.  A crise a que Nietzsche se refere não se dá na atmosfera intelectual propriamente dita, mas é aí onde ela é elaborada.  E nas grandes instituições, é em algum lugar onde há vontade de potência, mas nem sempre, aliás – o filósofo desconfia que esta suposta “verdade” jamais participa desses jogos de poder.  O Cristianismo que é o foco de sua mais ácida crítica nasce da confluência de duas tradições distintas: A dos filósofos gregos e o legado dos mesmos e a tradição judaica.

Em Nietzsche, a moral cristã não é superior, e tão pouco se encontra entre um ideal e outro, não é uma passagem. As críticas do autor são ácidas – e isso é fato, mas é muito importante prestar atenção nas entrelinhas, uma vez que Nietzsche não explicita, não sugere nenhuma ação, ou melhor, não prescreve a saída para os problemas que assolam a humanidade desde o advento do Cristianismo. Mas indica, mui sutilmente uma busca na sua teoria da transvaloração dos valores, ou seja, uma autêntica posição do homem em relação a si próprio, aos outros e a vida.  

Para Nietzsche, não é possível colocar a verdade como uma fonte única, nem tão pouco fazer uso de uma certeza imediata, aqui se mescla a vontade de potência envolvida em tudo tentando fazer valer sua autêntica notoriedade para a supressão dos demais. E o que se origina mediante tal postura é justamente o fato de que estamos sempre na tentativa de querer provar o quanto estamos corretos diante de algo que não é claro nem mesmo a nós fundadores e inauguradores de tais idéias, parteiros de bebês que se não nos avisam tomamo-nos em nossos braços e acariciamos nossas idéias putrificadas, nossa estúpida aparência de sábios, nossas vergonhas às claras, nossa soberba e tola teimosia de não querer entender o que dizem os outros.

Ora, essa criança a que acariciamos nasceu morta, nossas idéias já nascem rodeada de rosas malcheirosas, cercadas por espíritos fúnebres que olha um ser sem vida, fruto de suas elucubrações que se baseiam somente na dúvida.  ? Há quem diga que ele precisa ser salvo – mas ser salvo exatamente do que? Se há uma salvação a quem o homem de fato deve ser salvo, resgatado e recuperado – é em relação as chagas de sua cultura, sobretudo, religiosa e cristã que o renegou a uma posição demasiada inferior, pequena, servil e blasfêmica em relação a própria vida. Isso por acaso vós espanta, nós espanta? Tremamos todos diante da realidade que nos fala, de nossa honrosa estupidez, pois com ela suportamos a vida, enquanto deveríamos apenas viver. Sim, para os fracos, descrentes de si, presos a ficções, deveras, sim. E para os que não o são? O próprio impulso da vida revela-se nisto: na consideração do mundo como a criação humana, do homem para ele, por ele, com ele. O homem não pode temer a si. Por que temer a sua crença, ainda que ela seja devastadora e única diante do todo? Isso é uma negação de si mesmo; e isso é aterrador; é esquizofrênico, é paranóico.

O CRISTIANISMO

Em seu livro Der Antichrist, o filósofo reserva ao Cristianismo uma das mais ferrenhas críticas já feitas.  Na personalidade de Nietzsche, se fosse possível traçar – talvez descobríssemos alguns traços que nos ajudasse a melhor compreender seu ataque ao cristianismo e também de algumas das figuras mais  proeminentes na história do cristianismo. Houveram-se muitos comentários a seu respeito e não propriamente de sua filosofia, mas do que dela resultou – como sendo obra de um autor resignado, mas o adjetivo empregado tal e qual[1], ou seja, de um pensador que não mede forças com o que já esta estabelecido, não se revolta com a cultura de sua época, contra os vícios a que estão submetidos, a decadência dos valores ou sua submissão aos preceitos da igreja que tudo rege, em tudo penetra e tudo mata segundo a sua crítica mais feroz.

Talvez, em Nietzsche encontramos mais do que um resignado, um filósofo que além da coragem de observar atentamente as fases presentes de seu tempo, soube como poucos vislumbrar também que sua obra não falava apenas do presente, mas também dos problemas que ainda estariam por vir.  Não se pretende colocar nele o rótulo de profeta, mas simplesmente de achar a ele uma justa colocação no cenário filosófico do mundo ocidental, como pensador autêntico que soube tratar dos problemas da humanidade de uma maneira direta ainda que isso lhe causasse tantos dissabores.  Seu ataque, ao contrário do que muitos pensam, não é contra a figura do cristo e de suas estórias, que ele cresceu ouvindo falar de quando ainda habitava em Rostock sob a tutela de seus pais, mas, é, sobretudo, o que foi feito de seus ensinamentos – é possível ter existido em suas reflexões mais íntimas uma consideração ao cristianismo, mas esse cristianismo seria a própria vida do mestre e não a sujidade a que ele foi submetido, o que ficou foi à idéia, o símbolo, mas não sua essência, sua própria pregação, seu amor incondicional à humanidade.   

As reflexões metafísicas sempre foram palco de polêmicas e de críticas por parte dos pensadores.  Nietzsche não foi exceção, mas a regra.  Ele dirigiu uma das mais ácidas críticas uma vez já feita contra o cristianismo. Em sua reflexão: o que criou o cristianismo? O que o filósofo pretende relatar ao longo de sua vasta obra que trata do assunto, senão diretamente como o faz no “Der antichrist”, Fê-los em forma de aforismos ou em capítulos com temas diversificados. Em sua reflexão é aparente os temas como o homem com medo, a esperança fundada no nada, a condenação do homem, o descrédito em relação as suas forças, a negação da vida e das vontades próprias do homem. O aniquilamento do individuo para que prevaleça o coletivo

O que há de errado com o cristianismo? O homem não precisa do cristianismo, porque se basta a si mesmo, e em outros aspectos porém, sem as fantasias religiosas, sem as promessas de um mundo melhor, de outro plano onde possa existir num perfeito estado de felicidade, uma salvação para sua alma, o homem ao invés de perecer, desenvolve-se, transpõe seus obstáculos naturais, supera-se e torna-se autêntico ou simplesmente humano mas não mais uma figura desumanizada como o quer o cristianismo deturpado, eclesiástico, sacerdotal e de casta.  E se nos questionamos sobre o pecado adâmico ou original? Temos por acaso uma culpa, estamos nós purgando pecados e débitos ainda que não compreendemos nada sobre tais coisas?  E ainda que haja forças ou uma entidade metafísica que vive e coordena o universo, ainda nos é difícil afirmar que o homem tenha que pagar por cada um de seus deslizes, de cada recaída, de cada ação que não só surpreenda, mas ultrapasse a expectativa de nossos semelhantes, e os choca. Por que temos que viver com esperança num além-mundo, quando temos aqui tudo o que precisamos? Ora, não é a esperança a mais insultada e perseguida virtude entre os gregos? E por que os gregos desconfiavam do que podia nos proporcionar a esperança? Ora, é ela responsável por tirar do homem o seu foco no momento presente, na sua realidade em troca de um porvir, de uma transcendência insegura, sem respostas para as muitas indagações que o ser humano trouxe átona.   

Quantas teorias, signos e elucubrações a respeito de um assunto que apenas se conjectura.  Estamos sempre a pegar rabeira na tradição, no discurso – mas por que? Por medo, por receio de blasfêmia? Mas como poderá blasfemar sobre algo que não se entende? O homem simples virou degredo em sua própria morada, em seu habitat natural.  Onde deveria haver paz em abundância, fez-se guerras religiosas para impor um pensamento, um dogma, uma verdade que não se sustentava por si mesma e precisava da força de seus representantes, de seus algozes e mártires – que já não eram mais fiéis ao seu Deus.  O homem corrompeu-se e assim surgiu o mal, este se tornou a regra.  Mas como sempre há os seus contrários e ao longo da história do cristianismo surgiram muitos que compreenderam a deturpação dos valores que se mantinham na primeira formação do cristianismo e denunciaram, e os lançaram em rosto, e debateram até que se pudesse ver não a verdade, mas o poder do coletivo já instalado, já como regra, já como pedagogia para o povo que agora o defende mesmo sem entender as intrincadas explanações dos signos que o sustentam. 

A igreja ganhou espaço, fixou terreno, estabeleceu e consolidou os seus dogmas e assim garantiram a supremacia da religião – agora também mascarada de Estado. Não há mais as verdades do Cristo, que já teve uma cisão com a pessoa de Jesus – há problemas outros que os incomodam, a política, os hereges, e outras denominações de sua época quando suas raízes acabavam de ser lançadas. O que fizemos ao longo da história senão criar idéias românticas sobre o legado deixado pelos grandes mestres que nos precederam? Nem mesmo esses pensadores de proeminência admitiriam todo esse culto a eles, mas prefeririam ao invés disso, uma atitude filosófica de engajamento, de exame minucioso, de investigação, de desconfiança mediante aos temas propostos e suas conseqüências.  Hegel, filósofo alemão do século XIX – nos lembrava que em algum dado momento todo filósofo um dia foi espinosista, de quando se referia aos seus contemporâneos ou mesmo os que vieram depois dele, mas já podemos dizer isso também em relação a Nietzsche, sua atitude de reprovação, de descontentamento com sua época, com as mazelas da sociedade, com as regras já estabelecidas, com o faz de conta, assim como a miséria religiosa que atingiu até mesmo os grandes filósofos.

Nietzsche nunca escondeu sua revolta como pensador em relação à religião ou tudo que fosse religioso, por isso, ele interpretava tudo isso como derrota, desânimo, submissão, impotência, fraqueza, niilismo, suicídio, submissão e morte.  Eis aí o maior pecado dos cristãos: a negligência, a capacidade destrutiva, putrificante, desesperada e contrária a vida – a essa maravilha, essa oportunidade de sentir, contemplar e viver uma existência baseada nas suas vontades sem se afastar da idéia de cooperação mútua com as demais espécies, sem inventar meios de apaziguar seus medos, suas frustrações, suas incapacidades, sua falta de recursos para superar-se que foi minada ou esta se deixando se contaminar pelo niilismo.  Então não inventamos uma estória que nos persuada a ter esperança num mundo metafísico, se tudo já esta dado, já é fato, já é perceptível e nós somos todos parte de um mesmo sistema.  O filósofo escrutina o que de algum modo o espantou, o assombrou e finalmente tirou-lhe a paz que era o usufruto de uma vida onde as coisas fluem tal e qual sempre o foi. Eis que um dia a razão que o envolve e inspira sua natureza filosofante causa-lhe espanto em relação a algo que era comum a todos e inclusive a ele. 

A religião – sempre teve sua posição política bem definida quando as vantagens para a cúpula de seu clero abastado, as influências já asseguradas em todas as classes que a ela se encontravam subordinadas.  Enfim, a igreja tem sido um instrumento de legalidade para dominar e fazer dormir seus fiéis, enquanto eles viviam folgadamente o santo prestígio da atividade clerical que em síntese jamais coadunara com os valores niilistas que exortavam a seus fiéis quanto à necessidade de se purificar. O que se tornou a vida? Antes de assassinarem Deus, primeiro se preocuparam em atacar suas creaturas que professam sua existência, seu poder, seu amor, sua aliança de amizade com os humanos criados a sua imagem e semelhança.  A história é nossa aliada e Nietzsche não deixou de investigá-la para descobrir o que havia de mais verossímil na história da humanidade.

Uma vez que suas bases foram assentadas, e a igreja foi bem sucedida em suas guerras contra o protestantismo no século XVI, contra os maniqueístas no século V, nas cruzadas européias contra os judeus e árabes no século X, as conquistas ultramarinas, as guerras do islã contra o judaísmo, o massacre contra os cátaros e valdenses no século XII e XIII.

A MORAL CRISTÃ

O que é de fato a moral cristã?  A moral do cristão não é outra coisa senão a moral da culpa, do medo, do arrependimento, do desapego às coisas da vida. Mas não é a vida uma dádiva de Deus? Se a resposta é positiva, então porque temos que rejeitá-la? Ergue-se aqui grande paradoxo, ou seja, pode Deus ter criado o universo para diverti-lo? Somos nós marionetes animadas, ou seja, com vida apenas para servir aos desejos de um deus que não aprendeu a brincar? Um deus tedioso que precisa de entretenimento para tirá-lo de sua ociosidade divina? Então por que Deus[2] criaria o cosmos e um único planeta para exatamente ali inserir uma espécie tal que o servisse e o amasse? Se esse era o propósito então porque condenar os homens? Por que educá-los através de uma teologia que negue a vida, o que há de mais sólido para o homem?  

Mas onde estão as respostas das religiões? Tudo o que nos dizem é: Tendes fé e tudo se revelará a você.  A verdade se descortina somente quando deixamos de indagar.  Mentes inquiridoras tornam-se cegas porque não estão abertos aos milagres da fé. Eis, as justificativas, mas também crêem os inquiridores, os racionalistas, também cria Spinoza, Leibniz e Descartes.  Também creu Anthony Flew o mais famoso ateu contemporâneo de nossa época que ao final de sua vida enxergou a beleza do criador, mas nunca deixou de se perguntar por que as coisas eram dessa e não de outra forma. E porque fizeram nos acreditar que somos seres tão pequenos, tão desprezíveis, sem valores, culpados de ter nascido? Por que nos impõem que não se deve revoltar contra o Pai, pois isso é motivo de castigo, de vingança?

Por que devemos ser um cárcere onde se expia culpas eternas? E o pecado adâmico ou original – há por acaso uma explicação plausível que possa lançar luz a esse ser mitológico que não traz outra coisa em sua idéia, a não ser, mais dúvida. Os próprios filósofos se limitam simplesmente a passear mui vagarosamente em torno do assunto – e nós já sabemos que não é um simples fato que se possa submeter a razão, há necessidade de outras fontes, por enquanto – construíram textos, discutiram longamente e incansavelmente sobre o tema mas ainda estamos longe de uma resposta segura, e muito provavelmente nunca a ela chegaremos devido ao perigo e quiçá, o escândalo a que isso poderá causar no mundo habitado por seres humanos.    A vida - essa dádiva, já compreendemos que uma vez em posse dela, ou dela participando é evidente que encontraremos limites que em boa hora cedo ou tarde virá sobre cada um de nós; mas precisamos dizer não a ela? Sofrer por antecedência, agir como se estivéssemos de resguardo para o eterno, vivendo a cada dia como se isso fosse meramente uma passagem? Isso é certamente fazer o homem menor do que suas próprias limitações de ordem natural é lançá-lo violentamente ao chão e pisoteá-lo.

O CRISTÃO COMO EXEMPLO DE SUPER HOMEM

Nietzsche argumenta que:

‘verdadeiro’ será, neste caso, aquilo que é mais prejudicial para a vida; ‘falso’ será tudo quanto a eleva, realça, afirma, justifica e a conduz ao triunfo… Quando sucede que os teólogos, através da ‘consciência’ dos príncipes (ou dos povos), estendem as mãos para o poder, não duvidemos do que realmente acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder…

Ora o que é o cristão para Nietzsche? O entregar-se de modo total e absoluto numa idéia que não sem interesse, muito bem nos conduz segundo os dogmas que cegamente professam, eis aí a chave para uma vida de cristão! Não há um andar vacilante, mas um andar as cegas, não há tão pouco um tatear porque muito pouco ou quase nada nos deixa como referência ao longo do caminho, daí permanecemos inseridos no rebanho simplesmente porque temos medo ou uma necessidade de conectarmos com algo que seja maior do que nós.  Nesse processo de pedagógico para a massa – que não atinge a todos com o mínimo, ainda que  sonhássemos que isso fosse possível, mas não só isso, porque os alicerces da igreja de Roma é não só obscuro mas complexos para compreende-los. 

Há divergências entre historiadores, filósofos, historiadores da filosofia e mesmo entre antropólogos e teólogos sobre o período em que a base da igreja ser formara, ou seja, a teologia tornara-se algo extremamente complexa ao longo dos séculos e pouca importância foi dispensada com o intuito de aprender o significado da liturgia da igreja, a história de sua constituição, as bases pelas quais se originou o dogma – a veracidade dos textos ali agrupados nas sagradas escrituras bem como a organização e legalidade de seus principais livros, ou seja, o que já é complexo para os doutores da própria igreja, que se alimentam dos mesmos textos, porém, com uma interpretação que não passa ao largo da tradição, mas repete-a sem se dar conta que não desconfiaram, não perscrutaram as raízes, a situação sócio-cultural de seus escritores, a posição geográfica e o entrelaçamento com culturas diversas como é de nosso conhecimento.

Com isso, a fé é a única esperança para o cristão – sem conhecimento, sem coragem para adentrar o labirinto que é a origem da fé que ele mesmo professa, ele se entrega a uma vida de ritual que apesar de prestar atenção não satisfaz sua mente inquiridora.  Todo e qualquer questionamento, é visto com reservas por parte de seus irmãos na fé, membros da mesma instituição e que confabulam ou carregam o mesmo pesado fardo da dúvida, mas para não se passarem por espíritos facciosos dentro de sua comunidade religiosa calam-se e fazem a vontade dos clérigos da igreja. 

Já não é Deus quem nos cala, mas o poder eclesiástico quem nos quer calar, nos acusar de heresia, de apostasiar, de blasfemar contra, de pretensão e etc. Até que ele entre numa profunda zona de ausência de sentido ele já terá negado boa parte do que ele é, seus principais dotes intelectuais, seu corpo, sua mente, sua coragem, seu orgulho de ser homem, de sentir-se humano, livre e, enfim, o aniquilamento da vontade que é o seu golpe fatal.  Antes de mostrar o paraíso, a igreja moldou a sua mente para que tu entendesses o quão necessário é a “igreja do senhor”, sem nunca antes mencionar a quem de fato eles servem.  O cristão esta pelo estatuto e regras da comunidade aconselhado e admoestado para que não tente, não ouse, não veja, não sinta e não seja.

Dessa forma, o filósofo expõe: O que é cristão é um certo instinto de crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de maneira diferente; a vontade de perseguir. E mais adiante, revela: O que é cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a liberdade, a libertinagem do espírito; o que é cristão é o ódio contra os sentidos, contra a alegria dos sentidos, contra a alegria em geral…

Daí as conseqüências de todo um modo muito específico de ser; a submissão as interpretações por parte do alto clero e seus subdepartamentos. Para tanto, o cristianismo intenta dominar a ferocidade humana, tornando os homens fracos e doentes. Nietzsche já disse: … o enfraquecimento é a receita cristã para a domesticação, para a ‘civilização’. Para se ter noção disso, basta um lançar de olhos sobre a história, utilizando-nos dos exemplos acima mencionados.  O que ocorreria se todos os cristãos se instruíssem? Mas digo os cristãos sem aquela típica tendência ao fatalismo, a miséria, ao olhar nivelado ao chão, rastejante, mendicante, sem vida, sem nada. Enfim, o niilista par excellence, a caricatura do ser humano em sinal de prostração, de derrota e de perda total de si.

Me refiro ao homem, cristão, primeiramente homem – e que ainda que fora uma vez tragado, seduzido – mas agora de ouvidos abertos, de olhos compenetrados sob os registros da história e com os sentidos prontos para um entendimento superior – não digo racional, mas meramente – menos ou totalmente desprendido dos dogmas ensinados a ele pela catequese – pela repetição descabida de seus repetidores, na via dos ensinamentos de Paulo que segundo o filósofo é o mais alto símbolo do cristianismo pervertido, do ressentido que conhecendo os ideais gregos – assenhoreou-se dos ensinamentos do Cristo, do nazareno, digo do homem ainda na sua pureza, sem a pretensão de iniciar um dogma, de constituir uma igreja e ser a cabeça dela.  O homem que jamais travou uma guerra entre nós, nem tão pouco condenou o corpo, nem criou dualidades e jamais pretendeu salvar alguém.  Jesus era um espírito livre e Nietzsche afirma que sua pureza era tamanha que mesmo as orações e ritos já não eram mais necessários para o seu contato com Deus[3]. O homem é livre para ser, para sentir-se divino – o que não é a mesma coisa de ser, e que isso fique bem claro – é a prática que nos conduz o fazer o bem, o ser justo, o amar a vida – não necessariamente implica que para isso atingir, necessitamos do cristianismo como ponte, como meio.

A história nos mostra sinais desse tipo de homem – o homem libertado das correntes do cristianismo, o homem certo de que há mais por trás do que nos é ensinado, por trás do que já é fato e já esta acabado – o homem que rejeita a tradição.  A igreja católica teve os seus momentos de aflição de espírito, e a natureza é tão justa, tão sábia que nunca nos deixa de nos enviar Galileus, Keplers, Giordanos.  Assim, precisamente entre os séculos XIV e XVII – surgiram não só movimentos, mas homens de proeminência que ousaram colocar objeções aos postulados da igreja.  O preço era alto, mas eles não estavam sozinhos – em cada ponto da Europa haviam homens que buscavam a compreensão do mundo sob uma outra ótica e quando essas inquietações começam a chamar a atenção dos cortesãos, homens da política, pensadores e outros, tudo parece estar muito bem – até que a crise desce das camadas mais altas da sociedade e chega até os plebeus – é escandaloso, é perigoso – tais dogmas serem contestados nas camadas inferiores da sociedade. 

Henrique VIII na Inglaterra e sua dissensão com o Vaticano, Erasmo de Roterdã que se tornara um algoz também para as autoridades clericais, Martinho Lutero que de dentro da própria igreja promoveu uma onda de contestações que forçava a cúpula do Vaticano a retratar-se, no entanto, com chance de defesa enquanto pensavam estar acusando-o de herege ou apostata, mas submetidos ao jugo de suas palavras e de suas interpretações que fizeram ruir, até mesmo parte da liturgia tradicional da igreja universal.  E o cristianismo seria refutado? Não, a Igreja fora contestada, fora questionada. Filósofos, cientistas, até santos da própria igreja, que denunciavam o poder religioso, que queriam o conhecimento humano acima de tudo, tiveram que ser calados, perseguidos, queimados. E deu-se início à Caça às Bruxas, a perseguição ao herege, à ciência, ao livre pensamento, à liberdade, ao homem. A ideologia da vingança da Igreja Cristã mostrava todos os seus dentes e dotes. A fé transmudou-se em sangue, espada, dor, sem necessidade de provas.

E os ultrajes disparavam em toda a Europa. Lutero, da própria Igreja, resolve sublevar, mas em seu próprio benefício, o que nada instituiu de novo, pois a lógica do pecado, da culpa, do medo continuaria a mesma, com exceção de que o Verbo não teria mais como porta-vozes o clero, a santíssima igreja de Paulo, mas o leigo, o povo, as interpretações, em cada região européia, das escrituras sagradas. Lutero não negou o cristianismo, ele também queria o poder; não lhe satisfazia a versão única da Bíblia, ele queria adeptos para as suas palavras, embora essas fossem nada mais que reverberações similares ao que já estava sendo pregado. A punição, a expiação, o terror ainda viviam. O cristão parecia vencido; pelo menos, estava chamuscado com o próprio fogo.  Posteriormente filósofos como Spinoza e outros moveram também contra os dogmas uma interpretação que levaria a Europa a um sentimento de inquietação.





Gilmar Silva dos Santos

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Nietzsche, F.W. Para além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 2 ed.

Nietzsche, F.W. O anticristo: Tradução de Pietro Nasseti.  São Paulo: Martin Claret

De Moura, Carlos A.R. Nietzsche, civilização e cultura.  Editora Martins Fontes.



[1] Dicionário Houaiss  - Editora Objetiva – pág. 453. adj. Que se submete pacientemente a uma força superior. Que suporta um mal sem se revoltar; conformado: doente resignado.Conformar-se, submeter-se, entregar (cargo), abdicar-se de algo. 
[2] Nota do graduando: Optei por usar letras maiúsculas para me referir a Deus, sumo bem, ideal cristão, onipotente e onipresente em detrimento da mesma palavra com letra minúscula para se referir as elucubrações da idéia de deus com o mesmo significado aplicado ao primeiro.
[3] Nietzsche, Friedrich – O anticristo – Editora Martin Claret – aforismo 36 pág. 68 § 3

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