DA MORAL E DAS VERDADES
A
priori diríamos que o livro de Nietzsche “Der Antichrist”, antes de
lermos ao menos sua introdução ou as primeiras linhas do primeiro capítulo, se
trataria de um ataque a pessoa de Cristo, mas ao iniciarmos a leitura é
possível chegar a uma compreensão bem mais complexa do conteúdo que uma mera
concepção contrária aos ensinamentos do mestre dos evangelhos.
A crítica
de Nietzsche é, sobretudo dirigida ao homem moderno, aos seus contemporâneos e
como suas vidas eram organizadas e vividas segundo uma moral cristã que aos
olhos do filósofo eram decadentes. O que
Nietzsche designa como decadente são os valores apreendidos dos ensinamentos do
cristianismo, que fazem do homem menor do que aquilo que ele pode representar,
ou seja, sua humanidade, suas vontades, seu próprio desejo de superar-se e
tornar-se uma figura humana e quiçá além de sua própria humanidade. Para esclarecer os principais pontos de sua
visão crítica sobre as bases do cristianismo faz-se necessário um retorno ao
início de como o mundo ocidental foi ao longo dos tempos tomando sua forma. Primeiramente, a figura de Cristo não é a mais
polêmica e nem tão pouco a que será mais combatida ao longo do seu
“anticristo”. Até mesmo porque a
intenção do filósofo não é combater o Cristo propriamente dito mas o que a
tradição utilizou e distorceu de seus ensinamentos. É importante considerar a etimologia da palavra
αντι oriunda do Grego, e que traz em sua significação
“aquilo que substitui” e não como fora adaptada para os demais idiomas com o
peso de ser contrário a algo. E se há
alguma crítica ou pensamentos contrários as intituições já estabelecidas assim
como a liturgia por trás das mesmas, elas certamente terão um endereço mas não
necessariamente e de modo contundente a figura do Cristo, a quem, o filósofo
por vezes refere-se a ele com certo cuidado, como nos é possível perceber em
algumas citações ao longo do livro. O
título foi de algum modo bastante sugestivo ou bem elaborado se consideramos o
que de fato o filósofo tentava combater.
Ora, não se trata do Cristo como já foi descrito acima, mas de todos os
valores metafísicos que criaram a partir de seus ensinamentos, mas, sobretudo,
dos ensinamentos de Platão que foi o precursor do dualismo entre mundo
inteligível e mundo sensível.
“Em sua
obra “Para além do bem e do mal” Nietzsche descreve o Cristianismo como um
platonismo para o povo. De algum modo podemos compreender o porquê o título de
seu livro surge como um significado bem mais abrangente do que o próprio título
nos quer informar, pois a dualidade a qual o filósofo se refere não para aí,
mas segue em diante com outras dualidades que estão intimamente ligadas a
natureza da metafísica, ou seja, céu-inferno, corpo-alma, salvação-condenação e
etc. Nietzsche é considerado por muitos um filósofo da cultura, ou alguém que
idealizou um mundo sob uma nova ótica, sob novos valores, valores esses que ele
dedicou a maioria de seus escritos. Seus
escritos tem incomodado a muitos que se apegaram as regras já dadas,
simplesmente aceitaram-nas em troca de respostas que acalentassem suas almas
ávidas por uma quietude. Mas para
Nietzsche essas respostas permanecerão nos incomodando, simplesmente porque não
é possível encontrá-las. O que há
disponível para todos nada mais é que “wille zur macht” ou vontade de
potência, e essa sim nos impele a ser, a criar, a destruir, a transformar. Ela é individual mas nos aparece como uma síntese
universal, pois é ela que interpreta o que chamamos por realidade. É desse ponto de vista que Nietzsche
curiosamente vai se opor aos fatos, ou seja, se eles existem tal como se
apresentam a nós. Segundo o filósofo, são meramente interpretações forjadas das
forças, que dalgum modo expressas em vontade de potência suscita uma realidade,
mas ela é enganosa.
O
cristianismo é, portanto uma interpretação entre muitas, e, portanto, não pode
ser a detentora de toda a verdade na terra.
Se tudo nos fosse absolutamente aparente, talvez não necessitássemos de
tantas instituições religiosas cada qual com um caminho muito próprio para se
chegar à salvação. Isso nos demonstra
que o que prevalece são as interpretações, ou as forças individuais interpretadas
segundo uma vontade de fazer com que seus pressupostos se instalem no grande
jogo das interpretações. É verdade que
elas surgem como qualquer outra, mas se reforçam ao passo em que mais adeptos a
elas se filiam. Isso significa que a
verdade está para mais além daquilo que podemos contemplar, mas nem por isso,
procuraremos pelas respostas de nossas muitas indagações em um mundo em que
dele nada sabemos.
E sobre
isso o filósofo nos aponta o caminho em sua “Zur genealogie der Moral”:
“Quanto maior for os olhares, de olhares distintos que saibamos empregar para
ver uma mesma coisa, tanto mais complexo será nosso conceito sobre ela, tanto
mais completa será nossa objetividade”, ou seja, entre escolher uma única
perspectiva a outras tantas que se coadunam com o objetivo a que nos empenhamos
– “a compreensão” o que nos será mais adequado? Isso dependerá de cada
um. É por esta razão que Nietzsche
aponta que tipo de leitor se dará o trabalho de se aplicar na interpretação de
seus textos. Ele os chamará de
hiperbóreos, um tipo único de ser que está muito além dos tipos
ordinários. Os hiperbóreos não aceitarão
os fatos tal como eles nos aparecem, não descansará até que uma visão do todo
seja formada, ainda que uma verdade não possa ser contemplada, mas insistirão
na busca do entendimento.
Mas
isso nos dá uma forte sensação de estarmos caminhando em círculos porque as
forças das quais Nietzsche faz tanta questão de mencionar, ele próprio e cada
um de nós somos uma fonte de nascimento e destruição, ou seja, como poderemos
lidar com essa sensação de nossa própria limitação? As forças são finitas
porque são humanas, mas não podemos dizer o mesmo do movimento que se dá a
partir das mesmas. Para manter o homem no caminho certo, ou seja, despertar o
homem para uma postura de independência e de ampla visão em busca de uma
compreensão que o eleve à um tipo superior de ser humano, Nietzsche aponta para o “Ubermensch” ou
o além-do-homem que estará mais preparado por suas próprias características a
conviver com sua capacidade de superar-se no enfrentamento com o mundo disposto
em enigmas, fragmentado em valores dos mais complexos. Nietzsche não compactua com os valores do
Cristianismo e há quem diga que sua filosofia as marteladas, no golpe
inflexível de suas asserções seja também um deus em boa medida.
Se os
cristãos criaram um “Deus” também pode-se criar outros valores – como o próprio
filósofo criou o seu “willen zur macht” e também o seu “ubermensch”,
ou seja, é o homem mais uma vez criando, interpretando e criando valores. Mas o
filósofo deixa bem claro que sua interpretação não é única. A filosofia, como o próprio Nietzsche fazia
questão de reiterar, é algo para os fortes, já os fracos usariam todo e
qualquer meio para se apoiar em algo.
Tentar interpretar algo antes de aderir a ele é para muitos um árduo
trabalho que pode levar anos e ainda assim mantê-lo ocupado por toda a sua
vida. É claro que a maioria dos homens
não se dará o trabalho de investigar algo que para ele será tratado como algo
comum ainda que lhes tire o sono, mas mesmo assim, não os espanta, o que com o
filósofo já não ocorreria. O filósofo
investigará e denunciará através de suas interpretações multi-direcionais quais
são os valores e a que interpretações se apóia o mais comum dos homens, e é
isso o que faz Nietzsche. A crise a que
Nietzsche se refere não se dá na atmosfera intelectual propriamente dita, mas é
aí onde ela é elaborada. E nas grandes
instituições, é em algum lugar onde há vontade de potência, mas nem sempre,
aliás – o filósofo desconfia que esta suposta “verdade” jamais participa desses
jogos de poder. O Cristianismo que é o
foco de sua mais ácida crítica nasce da confluência de duas tradições
distintas: A dos filósofos gregos e o legado dos mesmos e a tradição judaica.
Em Nietzsche, a moral cristã não é superior, e tão pouco se encontra
entre um ideal e outro, não é uma passagem. As críticas do autor são ácidas – e
isso é fato, mas é muito importante prestar atenção nas entrelinhas, uma vez
que Nietzsche não explicita, não sugere nenhuma ação, ou melhor, não prescreve
a saída para os problemas que assolam a humanidade desde o advento do
Cristianismo. Mas indica, mui sutilmente uma busca na sua teoria da
transvaloração dos valores, ou seja, uma autêntica posição do homem em relação
a si próprio, aos outros e a vida.
Para Nietzsche, não é possível colocar a verdade como uma fonte única,
nem tão pouco fazer uso de uma certeza imediata, aqui se mescla a vontade de
potência envolvida em tudo tentando fazer valer sua autêntica notoriedade para
a supressão dos demais. E o que se origina mediante tal postura é justamente o
fato de que estamos sempre na tentativa de querer provar o quanto estamos
corretos diante de algo que não é claro nem mesmo a nós fundadores e
inauguradores de tais idéias, parteiros de bebês que se não nos avisam
tomamo-nos em nossos braços e acariciamos nossas idéias putrificadas, nossa
estúpida aparência de sábios, nossas vergonhas às claras, nossa soberba e tola
teimosia de não querer entender o que dizem os outros.
Ora, essa criança a que acariciamos nasceu morta, nossas idéias já
nascem rodeada de rosas malcheirosas, cercadas por espíritos fúnebres que olha
um ser sem vida, fruto de suas elucubrações que se baseiam somente na dúvida. ? Há quem diga
que ele precisa ser salvo – mas ser salvo exatamente do que? Se há uma salvação
a quem o homem de fato deve ser salvo, resgatado e recuperado – é em relação as
chagas de sua cultura, sobretudo, religiosa e cristã que o renegou a uma
posição demasiada inferior, pequena, servil e blasfêmica em relação a própria
vida. Isso por acaso vós espanta, nós espanta? Tremamos todos diante da
realidade que nos fala, de nossa honrosa estupidez, pois com ela suportamos a
vida, enquanto deveríamos apenas viver. Sim, para os fracos, descrentes de si,
presos a ficções, deveras, sim. E para os que não o são? O próprio impulso da
vida revela-se nisto: na consideração do mundo como a criação humana, do homem
para ele, por ele, com ele. O homem não pode temer a si. Por que temer a sua
crença, ainda que ela seja devastadora e única diante do todo? Isso é uma
negação de si mesmo; e isso é aterrador; é esquizofrênico, é paranóico.
Em seu livro Der
Antichrist, o filósofo reserva ao Cristianismo uma das mais ferrenhas
críticas já feitas. Na personalidade de Nietzsche,
se fosse possível traçar – talvez descobríssemos alguns traços que nos ajudasse
a melhor compreender seu ataque ao cristianismo e também de algumas das figuras
mais proeminentes na história do
cristianismo. Houveram-se muitos comentários a seu respeito e não propriamente
de sua filosofia, mas do que dela resultou – como sendo obra de um autor
resignado, mas o adjetivo empregado tal e qual[1], ou
seja, de um pensador que não mede forças com o que já esta estabelecido, não se
revolta com a cultura de sua época, contra os vícios a que estão submetidos, a
decadência dos valores ou sua submissão aos preceitos da igreja que tudo rege,
em tudo penetra e tudo mata segundo a sua crítica mais feroz.
Talvez, em Nietzsche
encontramos mais do que um resignado, um filósofo que além da coragem de
observar atentamente as fases presentes de seu tempo, soube como poucos
vislumbrar também que sua obra não falava apenas do presente, mas também dos
problemas que ainda estariam por vir.
Não se pretende colocar nele o rótulo de profeta, mas simplesmente de
achar a ele uma justa colocação no cenário filosófico do mundo ocidental, como
pensador autêntico que soube tratar dos problemas da humanidade de uma maneira
direta ainda que isso lhe causasse tantos dissabores. Seu ataque, ao contrário do que muitos
pensam, não é contra a figura do cristo e de suas estórias, que ele cresceu
ouvindo falar de quando ainda habitava em Rostock sob a tutela de seus pais,
mas, é, sobretudo, o que foi feito de seus ensinamentos – é possível ter
existido em suas reflexões mais íntimas uma consideração ao cristianismo, mas
esse cristianismo seria a própria vida do mestre e não a sujidade a que ele foi
submetido, o que ficou foi à idéia, o símbolo, mas não sua essência, sua
própria pregação, seu amor incondicional à humanidade.
As reflexões metafísicas
sempre foram palco de polêmicas e de críticas por parte dos pensadores. Nietzsche não foi exceção, mas a regra. Ele dirigiu uma das mais ácidas críticas uma
vez já feita contra o cristianismo. Em sua reflexão: o que criou o cristianismo?
O que o filósofo pretende relatar ao longo de sua vasta obra que trata do
assunto, senão diretamente como o faz no “Der antichrist”, Fê-los em
forma de aforismos ou em capítulos com temas diversificados. Em sua reflexão é
aparente os temas como o homem com medo, a esperança fundada no nada, a
condenação do homem, o descrédito em relação as suas forças, a negação da vida
e das vontades próprias do homem. O aniquilamento do individuo para que
prevaleça o coletivo
O que
há de errado com o cristianismo? O homem não precisa do cristianismo, porque se
basta a si mesmo, e em outros aspectos porém, sem as fantasias religiosas, sem
as promessas de um mundo melhor, de outro plano onde possa existir num perfeito
estado de felicidade, uma salvação para sua alma, o homem ao invés de perecer,
desenvolve-se, transpõe seus obstáculos naturais, supera-se e torna-se
autêntico ou simplesmente humano mas não mais uma figura desumanizada como o
quer o cristianismo deturpado, eclesiástico, sacerdotal e de casta. E se nos questionamos sobre o pecado adâmico
ou original? Temos por acaso uma culpa, estamos nós purgando pecados e débitos
ainda que não compreendemos nada sobre tais coisas? E ainda que haja forças ou uma entidade
metafísica que vive e coordena o universo, ainda nos é difícil afirmar que o
homem tenha que pagar por cada um de seus deslizes, de cada recaída, de cada
ação que não só surpreenda, mas ultrapasse a expectativa de nossos semelhantes,
e os choca. Por que temos que viver com esperança num além-mundo, quando temos
aqui tudo o que precisamos? Ora, não é a esperança a mais insultada e
perseguida virtude entre os gregos? E por que os gregos desconfiavam do que
podia nos proporcionar a esperança? Ora, é ela responsável por tirar do homem o
seu foco no momento presente, na sua realidade em troca de um porvir, de uma
transcendência insegura, sem respostas para as muitas indagações que o ser
humano trouxe átona.
Quantas
teorias, signos e elucubrações a respeito de um assunto que apenas se
conjectura. Estamos sempre a pegar
rabeira na tradição, no discurso – mas por que? Por medo, por receio de
blasfêmia? Mas como poderá blasfemar sobre algo que não se entende? O homem
simples virou degredo em sua própria morada, em seu habitat natural. Onde deveria haver paz em abundância, fez-se guerras
religiosas para impor um pensamento, um dogma, uma verdade que não se
sustentava por si mesma e precisava da força de seus representantes, de seus
algozes e mártires – que já não eram mais fiéis ao seu Deus. O homem corrompeu-se e assim surgiu o mal,
este se tornou a regra. Mas como sempre
há os seus contrários e ao longo da história do cristianismo surgiram muitos
que compreenderam a deturpação dos valores que se mantinham na primeira
formação do cristianismo e denunciaram, e os lançaram em rosto, e debateram até
que se pudesse ver não a verdade, mas o poder do coletivo já instalado, já como
regra, já como pedagogia para o povo que agora o defende mesmo sem entender as
intrincadas explanações dos signos que o sustentam.
A
igreja ganhou espaço, fixou terreno, estabeleceu e consolidou os seus dogmas e
assim garantiram a supremacia da religião – agora também mascarada de Estado. Não
há mais as verdades do Cristo, que já teve uma cisão com a pessoa de Jesus – há
problemas outros que os incomodam, a política, os hereges, e outras
denominações de sua época quando suas raízes acabavam de ser lançadas. O que
fizemos ao longo da história senão criar idéias românticas sobre o legado
deixado pelos grandes mestres que nos precederam? Nem mesmo esses pensadores de
proeminência admitiriam todo esse culto a eles, mas prefeririam ao invés disso,
uma atitude filosófica de engajamento, de exame minucioso, de investigação, de
desconfiança mediante aos temas propostos e suas conseqüências. Hegel, filósofo alemão do século XIX – nos
lembrava que em algum dado momento todo filósofo um dia foi espinosista, de quando
se referia aos seus contemporâneos ou mesmo os que vieram depois dele, mas já
podemos dizer isso também em relação a Nietzsche, sua atitude de reprovação, de
descontentamento com sua época, com as mazelas da sociedade, com as regras já
estabelecidas, com o faz de conta, assim como a miséria religiosa que atingiu
até mesmo os grandes filósofos.
Nietzsche
nunca escondeu sua revolta como pensador em relação à religião ou tudo que
fosse religioso, por isso, ele interpretava tudo isso como derrota, desânimo,
submissão, impotência, fraqueza, niilismo, suicídio, submissão e morte. Eis aí o maior pecado dos cristãos: a
negligência, a capacidade destrutiva, putrificante, desesperada e contrária a
vida – a essa maravilha, essa oportunidade de sentir, contemplar e viver uma
existência baseada nas suas vontades sem se afastar da idéia de cooperação
mútua com as demais espécies, sem inventar meios de apaziguar seus medos, suas
frustrações, suas incapacidades, sua falta de recursos para superar-se que foi
minada ou esta se deixando se contaminar pelo niilismo. Então não inventamos uma estória que nos
persuada a ter esperança num mundo metafísico, se tudo já esta dado, já é fato,
já é perceptível e nós somos todos parte de um mesmo sistema. O filósofo escrutina o que de algum modo o
espantou, o assombrou e finalmente tirou-lhe a paz que era o usufruto de uma
vida onde as coisas fluem tal e qual sempre o foi. Eis que um dia a razão que o
envolve e inspira sua natureza filosofante causa-lhe espanto em relação a algo
que era comum a todos e inclusive a ele.
A
religião – sempre teve sua posição política bem definida quando as vantagens
para a cúpula de seu clero abastado, as influências já asseguradas em todas as
classes que a ela se encontravam subordinadas.
Enfim, a igreja tem sido um instrumento de legalidade para dominar e
fazer dormir seus fiéis, enquanto eles viviam folgadamente o santo prestígio da
atividade clerical que em síntese jamais coadunara com os valores niilistas que
exortavam a seus fiéis quanto à necessidade de se purificar. O que se tornou a
vida? Antes de assassinarem Deus, primeiro se preocuparam em atacar suas
creaturas que professam sua existência, seu poder, seu amor, sua aliança de
amizade com os humanos criados a sua imagem e semelhança. A história é nossa aliada e Nietzsche não
deixou de investigá-la para descobrir o que havia de mais verossímil na
história da humanidade.
Uma vez
que suas bases foram assentadas, e a igreja foi bem sucedida em suas guerras
contra o protestantismo no século XVI, contra os maniqueístas no século V, nas
cruzadas européias contra os judeus e árabes no século X, as conquistas
ultramarinas, as guerras do islã contra o judaísmo, o massacre contra os cátaros
e valdenses no século XII e XIII.
A MORAL CRISTÃ
O que é de fato a moral cristã? A
moral do cristão não é outra coisa senão a moral da culpa, do medo, do
arrependimento, do desapego às coisas da vida. Mas não é a vida uma dádiva de
Deus? Se a resposta é positiva, então porque temos que rejeitá-la? Ergue-se
aqui grande paradoxo, ou seja, pode Deus ter criado o universo para diverti-lo?
Somos nós marionetes animadas, ou seja, com vida apenas para servir aos desejos
de um deus que não aprendeu a brincar? Um deus tedioso que precisa de
entretenimento para tirá-lo de sua ociosidade divina? Então por que Deus[2]
criaria o cosmos e um único planeta para exatamente ali inserir uma espécie tal
que o servisse e o amasse? Se esse era o propósito então porque condenar os
homens? Por que educá-los através de uma teologia que negue a vida, o que há de
mais sólido para o homem?
Mas onde estão as respostas das religiões? Tudo o que nos dizem é:
Tendes fé e tudo se revelará a você. A
verdade se descortina somente quando deixamos de indagar. Mentes inquiridoras tornam-se cegas porque
não estão abertos aos milagres da fé. Eis, as justificativas, mas também crêem
os inquiridores, os racionalistas, também cria Spinoza, Leibniz e
Descartes. Também creu Anthony Flew o
mais famoso ateu contemporâneo de nossa época que ao final de sua vida enxergou
a beleza do criador, mas nunca deixou de se perguntar por que as coisas eram
dessa e não de outra forma. E porque fizeram nos acreditar que somos seres tão
pequenos, tão desprezíveis, sem valores, culpados de ter nascido? Por que nos
impõem que não se deve revoltar contra o Pai, pois isso é motivo de castigo, de
vingança?
Por que devemos ser um cárcere onde se expia culpas eternas? E o pecado
adâmico ou original – há por acaso uma explicação plausível que possa lançar
luz a esse ser mitológico que não traz outra coisa em sua idéia, a não ser,
mais dúvida. Os próprios filósofos se limitam simplesmente a passear mui vagarosamente
em torno do assunto – e nós já sabemos que não é um simples fato que se possa
submeter a razão, há necessidade de outras fontes, por enquanto – construíram
textos, discutiram longamente e incansavelmente sobre o tema mas ainda estamos
longe de uma resposta segura, e muito provavelmente nunca a ela chegaremos
devido ao perigo e quiçá, o escândalo a que isso poderá causar no mundo
habitado por seres humanos. A vida - essa dádiva, já compreendemos que uma
vez em posse dela, ou dela participando é evidente que encontraremos limites
que em boa hora cedo ou tarde virá sobre cada um de nós; mas precisamos dizer
não a ela? Sofrer por antecedência, agir como se estivéssemos de resguardo para
o eterno, vivendo a cada dia como se isso fosse meramente uma passagem? Isso é
certamente fazer o homem menor do que suas próprias limitações de ordem natural
é lançá-lo violentamente ao chão e pisoteá-lo.
O CRISTÃO
COMO EXEMPLO DE SUPER HOMEM
Nietzsche argumenta que:
…‘verdadeiro’ será, neste caso, aquilo que é mais prejudicial para a
vida; ‘falso’ será tudo quanto a eleva, realça, afirma, justifica e a conduz ao
triunfo… Quando sucede que os teólogos, através da ‘consciência’ dos príncipes
(ou dos povos), estendem as mãos para o poder, não duvidemos do que realmente
acontece: a vontade do fim, a vontade niilista, aspira ao poder…
Ora o que é o cristão para Nietzsche? O entregar-se de modo total e
absoluto numa idéia que não sem interesse, muito bem nos conduz segundo os
dogmas que cegamente professam, eis aí a chave para uma vida de cristão! Não há
um andar vacilante, mas um andar as cegas, não há tão pouco um tatear porque
muito pouco ou quase nada nos deixa como referência ao longo do caminho, daí
permanecemos inseridos no rebanho simplesmente porque temos medo ou uma
necessidade de conectarmos com algo que seja maior do que nós. Nesse processo de pedagógico para a massa – que
não atinge a todos com o mínimo, ainda que
sonhássemos que isso fosse possível, mas não só isso, porque os
alicerces da igreja de Roma é não só obscuro mas complexos para
compreende-los.
Há divergências entre historiadores, filósofos, historiadores da
filosofia e mesmo entre antropólogos e teólogos sobre o período em que a base
da igreja ser formara, ou seja, a teologia tornara-se algo extremamente
complexa ao longo dos séculos e pouca importância foi dispensada com o intuito
de aprender o significado da liturgia da igreja, a história de sua
constituição, as bases pelas quais se originou o dogma – a veracidade dos
textos ali agrupados nas sagradas escrituras bem como a organização e
legalidade de seus principais livros, ou seja, o que já é complexo para os
doutores da própria igreja, que se alimentam dos mesmos textos, porém, com uma
interpretação que não passa ao largo da tradição, mas repete-a sem se dar conta
que não desconfiaram, não perscrutaram as raízes, a situação sócio-cultural de
seus escritores, a posição geográfica e o entrelaçamento com culturas diversas
como é de nosso conhecimento.
Com isso, a fé é a única esperança para o cristão – sem conhecimento,
sem coragem para adentrar o labirinto que é a origem da fé que ele mesmo
professa, ele se entrega a uma vida de ritual que apesar de prestar atenção não
satisfaz sua mente inquiridora. Todo e
qualquer questionamento, é visto com reservas por parte de seus irmãos na fé,
membros da mesma instituição e que confabulam ou carregam o mesmo pesado fardo
da dúvida, mas para não se passarem por espíritos facciosos dentro de sua
comunidade religiosa calam-se e fazem a vontade dos clérigos da igreja.
Já não é Deus quem nos cala, mas o poder eclesiástico quem nos quer
calar, nos acusar de heresia, de apostasiar, de blasfemar contra, de pretensão
e etc. Até que ele entre numa profunda zona de ausência de sentido ele já terá
negado boa parte do que ele é, seus principais dotes intelectuais, seu corpo,
sua mente, sua coragem, seu orgulho de ser homem, de sentir-se humano, livre e,
enfim, o aniquilamento da vontade que é o seu golpe fatal. Antes de mostrar o paraíso, a igreja moldou a
sua mente para que tu entendesses o quão necessário é a “igreja do senhor”, sem
nunca antes mencionar a quem de fato eles servem. O cristão esta pelo estatuto e regras da
comunidade aconselhado e admoestado para que não tente, não ouse, não veja, não
sinta e não seja.
Dessa forma, o filósofo expõe: O que é cristão é um certo instinto de
crueldade para consigo e para com os outros; o ódio aos que pensam de maneira
diferente; a vontade de perseguir. E mais adiante, revela: O que é
cristão é o ódio contra o espírito, contra o orgulho, a coragem, a liberdade, a
libertinagem do espírito; o que é cristão é o ódio contra os sentidos, contra a
alegria dos sentidos, contra a alegria em geral…
Daí as conseqüências de todo um modo muito específico de ser; a
submissão as interpretações por parte do alto clero e seus subdepartamentos. Para
tanto, o cristianismo intenta dominar a ferocidade humana, tornando os homens
fracos e doentes. Nietzsche já disse: … o enfraquecimento é a receita cristã
para a domesticação, para a ‘civilização’. Para se ter noção disso, basta
um lançar de olhos sobre a história, utilizando-nos dos exemplos acima
mencionados. O que ocorreria se todos os
cristãos se instruíssem? Mas digo os cristãos sem aquela típica tendência ao
fatalismo, a miséria, ao olhar nivelado ao chão, rastejante, mendicante, sem
vida, sem nada. Enfim, o niilista par excellence, a caricatura do ser
humano em sinal de prostração, de derrota e de perda total de si.
Me refiro ao homem, cristão, primeiramente homem – e que ainda que fora
uma vez tragado, seduzido – mas agora de ouvidos abertos, de olhos
compenetrados sob os registros da história e com os sentidos prontos para um
entendimento superior – não digo racional, mas meramente – menos ou totalmente
desprendido dos dogmas ensinados a ele pela catequese – pela repetição
descabida de seus repetidores, na via dos ensinamentos de Paulo que segundo o
filósofo é o mais alto símbolo do cristianismo pervertido, do ressentido que
conhecendo os ideais gregos – assenhoreou-se dos ensinamentos do Cristo, do
nazareno, digo do homem ainda na sua pureza, sem a pretensão de iniciar um
dogma, de constituir uma igreja e ser a cabeça dela. O homem que jamais travou uma guerra entre
nós, nem tão pouco condenou o corpo, nem criou dualidades e jamais pretendeu
salvar alguém. Jesus era um espírito
livre e Nietzsche afirma que sua pureza era tamanha que mesmo as orações e
ritos já não eram mais necessários para o seu contato com Deus[3].
O homem é livre para ser, para sentir-se divino – o que não é a mesma coisa de
ser, e que isso fique bem claro – é a prática que nos conduz o fazer o bem, o
ser justo, o amar a vida – não necessariamente implica que para isso atingir,
necessitamos do cristianismo como ponte, como meio.
A história nos mostra sinais desse tipo de homem – o homem libertado das
correntes do cristianismo, o homem certo de que há mais por trás do que nos é
ensinado, por trás do que já é fato e já esta acabado – o homem que rejeita a
tradição. A igreja católica teve os seus
momentos de aflição de espírito, e a natureza é tão justa, tão sábia que nunca
nos deixa de nos enviar Galileus, Keplers, Giordanos. Assim, precisamente entre os séculos XIV e
XVII – surgiram não só movimentos, mas homens de proeminência que ousaram
colocar objeções aos postulados da igreja.
O preço era alto, mas eles não estavam sozinhos – em cada ponto da
Europa haviam homens que buscavam a compreensão do mundo sob uma outra ótica e
quando essas inquietações começam a chamar a atenção dos cortesãos, homens da
política, pensadores e outros, tudo parece estar muito bem – até que a crise
desce das camadas mais altas da sociedade e chega até os plebeus – é
escandaloso, é perigoso – tais dogmas serem contestados nas camadas inferiores
da sociedade.
Henrique VIII na Inglaterra e sua dissensão com o Vaticano, Erasmo de
Roterdã que se tornara um algoz também para as autoridades clericais, Martinho
Lutero que de dentro da própria igreja promoveu uma onda de contestações que
forçava a cúpula do Vaticano a retratar-se, no entanto, com chance de defesa
enquanto pensavam estar acusando-o de herege ou apostata, mas submetidos ao
jugo de suas palavras e de suas interpretações que fizeram ruir, até mesmo
parte da liturgia tradicional da igreja universal. E o cristianismo seria refutado? Não, a
Igreja fora contestada, fora questionada. Filósofos, cientistas, até santos da
própria igreja, que denunciavam o poder religioso, que queriam o conhecimento
humano acima de tudo, tiveram que ser calados, perseguidos, queimados. E deu-se
início à Caça às Bruxas, a perseguição ao herege, à ciência, ao livre
pensamento, à liberdade, ao homem. A ideologia da vingança da Igreja Cristã
mostrava todos os seus dentes e dotes. A fé transmudou-se em sangue, espada,
dor, sem necessidade de provas.
E os ultrajes disparavam em toda a Europa. Lutero, da própria Igreja,
resolve sublevar, mas em seu próprio benefício, o que nada instituiu de novo,
pois a lógica do pecado, da culpa, do medo continuaria a mesma, com exceção de
que o Verbo não teria mais como porta-vozes o clero, a santíssima igreja de
Paulo, mas o leigo, o povo, as interpretações, em cada região européia, das
escrituras sagradas. Lutero não negou o cristianismo, ele também queria o
poder; não lhe satisfazia a versão única da Bíblia, ele queria adeptos para as
suas palavras, embora essas fossem nada mais que reverberações similares ao que
já estava sendo pregado. A punição, a expiação, o terror ainda viviam. O
cristão parecia vencido; pelo menos, estava chamuscado com o próprio fogo. Posteriormente filósofos como Spinoza e outros
moveram também contra os dogmas uma interpretação que levaria a Europa a um
sentimento de inquietação.
Gilmar
Silva dos Santos
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Nietzsche, F.W. Para
além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo
César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. 2 ed.
Nietzsche, F.W. O
anticristo: Tradução de Pietro Nasseti.
São Paulo: Martin Claret
De Moura, Carlos A.R.
Nietzsche, civilização e cultura.
Editora Martins Fontes.
[1] Dicionário Houaiss - Editora Objetiva – pág. 453. adj. Que se submete pacientemente a uma força superior. Que
suporta um mal sem se revoltar; conformado: doente resignado.Conformar-se,
submeter-se, entregar (cargo), abdicar-se de algo.
[2]
Nota do graduando: Optei por usar letras maiúsculas para me referir a Deus,
sumo bem, ideal cristão, onipotente e onipresente em detrimento da mesma
palavra com letra minúscula para se referir as elucubrações da idéia de deus
com o mesmo significado aplicado ao primeiro.
[3]
Nietzsche, Friedrich – O anticristo – Editora Martin Claret – aforismo 36 pág.
68 § 3

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